quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A linguagem e seus fracassos como fundamento




O cinema,ou a música e a literatura,por exemplo,muitas vezes são vistos como válidos quando fabricam as ditas obras-primas.
Os modernistas passaram a questionar esses pressupostos,tentando aproximar vida e arte.Foi então que a oralidade da linguagem do dia-a-dia passou a ser também valorizada e passou a firmar novos modelos.
Isso radicalizado daria em Guimarães Rosa,com seus neologismos e também seus trocadilhos e "chavões"-tudo misturado.
Nesse espaço blogueiro,quando foi abordado o cinema de Roberto Rossellini,comentei algo sobre uma alternativa à linguagem oficial dessa arte.Mais do que isso,um estar "fora da linguagem",como recurso coerente às propostas do diretor italiano.Por exemplo,como seria filmar uma radical transmutação em um ser(com um alter se formando),ou mesmo um milagre de outra espécie(já que a mudança,por si só,já poderia ser um estado de "milagre")?
Nem precisaria tanto.Filmar o humano já constitui,por si mesmo,uma grande armadilha.Talvez a maior delas no cinema e na tv.Diretores como Eric Rohmer,Jean Renoir e Howard Hawks deram raríssima conta desse estado de presença do homem,do "milagre" de se estar vivo no universo,de alguma maneira.
Em Rossellini caberia dar conta não somente da presença,mas de como o universo reagiria a ela,nos termos de uma encenação.E a partir disso,de como o homem reagiria a esse olhar do cosmos sobre ele.
Como,então,seria filmar esse estado de coisas,esse jogo do visível ao invisível e vice-versa?Esse captar um certo estado de enraizamento na terra,conjugando-o com um estado de trânsito para o céu?
Enraizando Cristo ao máximo, colocando-o ao lado de outros homens para somente assim poder filmá-lo no momento da ressurreição,em que ele(ou Ele)esvanescerá diante do espectador e dos demais personagens em "O Messias".
Ou enraizando radicalmente a heroína de "Europa 51",que abandonará seu ambiente de palacete para habitar o húmus da terra e,assim, podermos entrever seu céu,no exato momento em que ela parece nos escapar(e aos demais no filme)sob forma branca,caiada,subtraída de uma dada matéria(ou bem de uma matéria dada).
Contudo,isso ainda não daria conta de toda uma estratégia de encenação.Em que consistiria essa atitude de filmar por subtração,de se desligar de um "bem escrever",de um "bem filmar"?
Em um ponto importante,resistindo à tentação da "fôrma" da obra-prima,que havia se tornado um anacronismo parnasiano,nada condizente com uma postura mais urgente da arte de se atrelar à vida.
Mas a respeito disso, fala melhor uma buriladora da mentalidade modernista no Brasil,a escritora Clarice Lispector:

"O indizível só poderá me ser dado através do fracasso da minha linguagem.Só quando falho a construção é que obtenho o que ela conseguiu."

domingo, 27 de dezembro de 2009

Em tempos de Comunicação de Massa no Natal e réveillon





Antigamente tinha o médium,intermediário entre o além e o aquém(embora eu não acredite neles).
Hoje tem a mídia,intermediária entre o consumado(espertalhão)e o consumista(idiota).
E,que nela também,acredite quem quiser-(recriando Millôr).


As maravilhas da mídia eletrônica:atualmente um subnutrido vivendo no local mais deserto do país pode assistir,como qualquer cidadão de São Paulo,dezenas e dezenas de anúncios sobre restaurantes,culinárias,doces e bebidas.

Os grandes meios de comunicação de massa foram inventados quando ninguém tinha mais nada para fazer-do ítem,o que um imenso tédio pode provocar. (recriando Millôr again).

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Impressões de Chico e de Crítica Musical




Como toco instrumento musical e canto,ainda que já de um bom tempo pra cá somente em minha própria casa(ou seja,não me tornei profissional),música para mim é mais fácil de ouvir e executar do que de falar a respeito.
Não sendo músico profissional,pegando as coisas que ficam meio caídas por aí,de ouvido ou de "pileque mental,auditivo",como poderia falar a respeito?Aliás,de música popular conheço pouquíssimas pessoas que saibam falar.
Normalmente citam muito letra,mas essa não é a música,e a coisa fica descabeçada,desarticulada ao ponto do vazio.O livro do Pedro Alexandre Sanches sobre a MPB de Paulinho da Viola,Chico,Ben e Caetano analisa somente palavras,o que, a meu ver,seria um grande equívoco.Paulinho chegou a reclamar disso e com toda a razão.
Daí pega-se uma música do Chico Buarque para dizer que não é lá grande coisa por não ser fiel a uma postura política do passado.Tá,mas e a estética?
Exigir posturas fixas,políticas(que seja)de artistas é totalmente fora de lugar.Ideologia nessas horas castra tudo,tal como as escolas,os modismos na arte, que só vão criando amarras com o tempo.
Como diz um dos Caymmis:depois que a obra do Chico passou a ser mais influenciada pelo Tom Jobim,as pessoas não conseguiram acompanhar.
Não é cópia.Influência,como tudo.Cultura se alimenta de cultura,arte de arte.O Pedro Alexandre diz pejorativamente que as músicas do disco "Cidades",por exemplo,revelam uma postura de indefinição.
O que ele chama de indefinição, a meu ver, são os elementos musicais do impressionismo,que Debussy,por exemplo,fazia uso para criar justamente esse tipo de atmosfera mais fugidia.Para quem já viu uma pintura impressionista, encontra-se por ali um tipo de indefinição visual,uma certa captação do transitório,que vai se dissolvendo,se fazendo quase onírico,a confundir as instâncias do tempo e do sonho com aquilo a que se convencionou chamar de "realidade".
O prólogo,por exemplo,da música do Chico "A Ostra e o Vento"-trilha do belíssimo filme homônimo de Walter Lima Júnior-é praticamente uma citação do "Prelúdio à Tarde de um Fauno",de Claude Debussy.No desenrolar,a letra vai sugerindo movimentos de vento e ondas do mar que,por sua feita,a música vai se encarregando de consumar em sua atmosfera de etéreas e pendulares oscilações.
Certa a afirmação de Caymmi sobre a herança jobiniana,pois tal músico já carregava consigo fortes elementos de Debussy.Se o crítico não pega isso,seja por ficar remoendo a letra,seja por fazer exigências políticas sem eira nem beira,a música há tempos que já se foi.Se perdeu.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Escola 2




Na segunda escola,que envolve um projeto social,o prazer advém muito da moçada.Primeiramente,o mais honesto seria eu falar mesmo em tom de confissão:Raramente eles me irritam.Já passaram e ainda passam por tanta dificuldade,perderam tantas oportunidades(a maioria delas não foi sequer cogitada em suas vidas)que nada(ou quase)me estressa.Não se trata de paternalismo. É que sei perspectivar melhor cada caso.
Como têm mais de 18 de idade,seria um pouco estranho pra mim esse papel de papá.Eu que mal dou conta de minha filha de 7 meses,que diria deles?Vejo-os,na verdade,como iguais,em vários pontos.Aparentemente temos origens bem distintas,culturas diferentes e tal.
Mas se estão à margem por alguns motivos,nem por isso deixei ao longo da vida de me colocar em um "outro lado"(sem malícias de posições,por favor).Menos por escolha, é mais por ontologia.Que palavrinha chique,hein?Como o "Peixe Grande", que não pode viver fora da água.Questão de natureza.No meu caso,sou o peixe nanico.
Não conseguiria exigir também certo tipo de cultura dessa turma.No caso da outra escola é diferente,pois os meninos têm recursos,oportunidades:Cavem seu poço. No Pró-Jovem é muito,muito diverso.
Mas gostaria de falar bem,sem nenhuma demagogia,da trupe de professores,meus comparsas.Não sei se eles têm a mesma visão progressista como a turma da outra escola.Talvez até não.E se não,é realmente lamentável que o seja.Na maioria do tempo,estou ocupado com meu próprio trabalho.Não me interessa meter o bedelho em trabalho alheio.
Certa vez levei uma letra de música do Ira para ser trabalhada,e a coisa não vingou,pois os meninos foram tratados como crianças e não como jovens de mais de 18 anos.Ou seja,a meu ver eles foram subestimados.Na outra escola,em que os alunos têm menos do que isso,nunca relutariam em trabalhá-la.Primeiramente veriam o que está "por trás" ,melhor,leriam nas entrelinhas e a professora de Sociologia seria a primeira a querer trabalhá-la.Na verdade,na escola,digamos,mais progressista,cheguei a ler a letra no momento de reflexão que antecede as aulas e os professores entenderam muito bem a proposta,o discurso da enunciação presente na música e gostaram deveras.Alguns até se empolgando.Ou seja,intelectualmente,culturalmente,falamos mais a mesma língua.A partir de lugares parecidos,semelhantes.
No Pró-Jovem rola muita questão administrativa e reuniões longas e sem grandes resultados sobre todos os assuntos.Menos sobre conhecimento e a perspectivação dos jovens no campo de um saber mais abrangente,levando em conta as várias possíbilidades de desenvolvimento.
A turma com quem trabalho(escola acima,na região),é a melhor possível.O grande defeito do bicho-homem é se considerar sempre melhor do que se é,de fato.Com todas nossas imperfeições,que podem ser sempre mais assumidas em um exercício concreto de humildade,gosto de todos ali,consideravelmente.Nos damos muito bem no trabalho.Embora não tome café em suas casas,nem eles na minha.Muito menos,molhando a bolacha no dócil líquido.Bem,coisas de mineiros.E eu, que sou mineiro,mas não sou(numa outra oportunidade me explico melhor sobre isso,assim como a riqueza presente nesses paradoxos barrocos),prossigo,como os demais.
Depois,com mais tempo,tentarei falar um pouco de um por um,de uma por uma.Dizer que não há afeto,como chegou a ser sugerido em uma reunião lá de baixo,é forçação de barra.O que tem de ser dito,falamos comumente logo,de cara,pra coisa não se complicar depois.Se essas mentiras que existem em toda relação de trabalho fossem se subtraindo a cada dia,teríamos sempre ótimos ambientes para trabalhar.No meu grupo,sinto considerável honestidade,franqueza para com eles.Daí a coisa flui,sem tensões desnecessárias.
Feliz Natal,galera do trabalho!Sem Papai Noel plastificado e sem o Cristo morto na cruz(herança maldita ibérica, também dos jansenistas e dos protestantes de Bergman),mas o Jesus mais próximo,"eu vos chamo de amigos",o vivo,a despeito de todas as tradições humanas que quiseram comê-lo com fascismo,mercantilismo e angu.

Escola 1




Perguntaram-me por dar aulas em duas escolas,qual seria a diferença entre uma e outra enquanto realização,essas coisas.
Todas são muito boas de trabalhar.Uma,por conta do projeto pedagógico,progressista e devido a um corpo docente de uma qualidade humana muito perceptível.Humana e,digamos,intelectual do "bom senso"(não sou lá muito chegado nessa palavra,mas vai).Não são anjos,seres perfeitos,mas brilham por serem pessoas com um certo nível de-lá vem a palavra de novo(argh)- maturidade.Maturidade educacional,sagacidade crítica,o que não encontramos em outras escolas por aqui,em que as pessoas seguem livrinhos didáticos e pensam que educar é "deformar" para vestibular e ponto.
Ok.Mas deve ter algum ponto negativo, logo pergunta o legista de cadáveres,o dialético niilista,metido a "realista"(palavrinha,hein?).Certo.O ponto menos estimulante está em que a maioria dos alunos fica bem aquém da proposta que citei como sendo mais progressista.Nunca sei qual a razão dos pais conduzi-los para essa escola.E lá estão os meninos,mimados,com suas cabecinhas fechadas,faltando muitas vezes em noções básicas de humanidade e cultura:não tanto do nacional,mas do nocional,como bem diria Júlio Bressane.
Li por esses dias um texto da Lya Luft em que ela defende a nova moçada, focando a responsabilidade nos pais.É exatamente o que faz o filme " A Fantástica Fábrica de Chocolates",de Tim Burton.Mas o artista é suficientemente inteligente para não dourar a pílula,qual seja,em não ser complacente com o que poderia se converter em mero álibi fácil para esses jovens.E é ao que muitos recorrem."Faço isso ou não faço,pois sou adolescente mesmo.Ponto."
Para uma escola que visa a autonomia,essas desculpas são,no mínimo,furadas.Vitimizações,transferir culpas e responsabilidades a outras pessoas funcionam somente como exercícios de fuga.A longo prazo,a ficha pode cair.Se os pais ajudarem,mimando menos ou motivando,ao invés de somente cairem na chantagem de inócuas pressões(sem nenhum sentido para os jovens),tanto melhor.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Te Recomendo,Lê




A Lenice me pediu uma dica de filmes novos da indústria,muita embora dizendo que tem medo de "meus" filmes :"muito cabeça".
Bem,poderia escolher umas mulas sem cabeça,ou antes,filmes mais descabeçados,mas o engraçado nisso tudo é que os diretores de que mais gosto:Hawks,Rohmer,Renoir,Hitchcock...são muito inteligentes,até concordo,mas não (tipicamente) "cabecistas".
O que vem ao caso é que, para ela que optou por filmes norte-americanos(no meu caso de morar no interior o acesso é também muito maior a esses),facinho,facinho seria indicar um excepcional "Gran Torino",do Clint Eastwood,ou um revirador e inversor de clichês,como o instigante "Fim dos Tempos"(Shyamalan),mas talvez esse último soe mesmo como mais "hermético".Pelo menos em suas reais qualidades.Mas como o admiro.
Poderia voltar um pouco ao faroeste contemporâneo de um,no mínimo admirável "Marcas da Violência"( David Cronenbergue),não me esquecendo,claro, de que o do Clint Eastwood também passa muito bem por esse estado de espírito: A América(do norte)voltando à sua condição de western primário,dessa feita apinhada de anti-heróis.
Mas, por fim,quis indicar mesmo algo do James Gray,o comentado "Amantes",que até então não havia encontrado por essas "pragas".E eis que ontem consegui topar com ele(muchas gratias!).
O início é bem animador e cheio de uma atmosfera mais introspectiva.
No entanto,as breves tomadas das ruas de Nova York,discretas,foram me parecendo bem mais consistentes do que as dos interiores,que é onde a maioria do filme,de fato,se passa.O que,para um projeto com pretensões mais intimistas,não deixa de indicar um certo e considerável limite.
No mais,no triângulo amoroso,que é o eixo da trama com suas questões,a moça que ama o protagonista e é consideravelmente preterida por ele,comparece com mil vezes mais carisma do que a real preferida do moço,vivida por Gwyneth Paltrow.Proposital ou não,a coisa não funciona tão bem.
Há uma certa forçação de barra nesse intimismo pelo desenrolar da obra,apesar da forte humanidade de seus protagonistas(não confundir humanidade com gestos humanitários),que,por melhor que seja "Amantes",na verdade um filme de destaque em meio a tanta ninharia da indústria,não consegui recomendá-lo com a força e a convicção que,antes de vê-lo, pensei que teria.
É bom?Com certeza.Mas prefiro o anterior desse sensível cineasta chamado James Gray:Os Donos da Noite é muito mais vivo, vivo-físico, mas com um intimismo menos óbvio,mais na surdina.E que surdina!E que vivacidade!Esse sim é,no mínimo,um ótimo filme.Recomendo-o com muita força,leveza interior e nenhum pesar,Lelê.

Dinheiro,poder e fezes(Um Manifesto-punk?)





A Psicanálise estabelece uma íntima relação entre a fase em que a criança namora,melhor,se fixa em seu ânus e em suas fezes como desencadeadora mór de sua constituição própria das noções de dinheiro e manipulação de poder na idade adulta.
Deduzo então que,diante de pessoas no mínimo mesquinhas,mandar enfiar todo seu dinheiro naquele lugar não seria bem indelicadeza ou grosseria-muito menos palavrão-mas tão somente uma boa fundamentação teórica.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Papai deseja casar








Bom descobrir que há mais gente no mundo a reconhecer a grandeza de um Vincente Minnelli(exercício narcísico?),para além dos falsos truísmos de que fazer musicais,comédias e melodramas seria recorrer a algo "menor" ,menos "profundo."
Já viram uma comédia ou musical ocupar alguma dessas listas "respeitáveis" de melhores filmes de todos os tempos?
Continuaremos eternamente pagando pau para os velhos paradigmas europeus e nos esquecendo de que o cinema é também uma arte do século XX?Prosseguiremos a querer ignorar que Charlie Chaplin,o primeiro artista a ser reconhecido como aquele a dar "status" de arte a um "recurso" tão desprezada à época, fazia comédia,melodrama e musical(em suas coreografias dançantes de caiado fonâmbulo),tudo,além do mais,misturado?Ele era amado pelas vanguardas mais sensíveis e inteligentes da época e nenhum deles parece ter feito acomodadas e rançosas restrições a seu gênio.Inclusive Élie Faure,que o comparava a Shakespeare,o que para um crítico de arte de seu porte não era pouco.
Abaixo um comentário sobre um supremo momento de Minnelli,extraído do Signododragão,do Bruno Andrade(alguém certamente não preconceituoso em sua ótica de cinema,até que me provem o contrário).E é justamente de rigor que estamos a falar,não só do crítico,mas do mestre-maestro Minnelli:

"É mais possível que dentre os auto-proclamados herdeiros de Minnelli o único verdadeiro sucessor seja aquele cuja arte pareça a mais distinta e distante possível, e é nesse sentido que Jean-Claude Rousseau me parece um digno sucessor do Minnelli. Há nos dois uma maneira (evidentemente ambos chegam a esta através de métodos distintos), uma maneira de fazer com que por meio de fechos sucessivos o ator se cole gradualmente ao cenário, o que permite ao ator que recorre aos velhos truques de marionetes estriadas liberar-se de certos vícios e ao cenário de ser mais que uma decoração simplória um tanto afastada da câmera (como ocorre em 98% dos cineastas que tentam decalcar os trabalhos de Minnelli, Sirk, Ophüls etc.). Tanto ator como cenário vêem-se liberados por essa forma, e é assim que o ator pode, por exemplo, comunicar a tranqüilidade absoluta da sua performance, simplesmente representando por meio de uma efração daquilo que está ao seu redor, enquanto o cenário passa ele mesmo a atuar sobre a cena; passa a ser, enfim, décor.
Uma idéia que tive após assistir The Courtship of Eddie's Father, facilmente o melhor filme a que assisti neste ano."

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Próximos lançamentos





Como próximos lançamentos da Lume: para fevereiro "Lola,A Flor Proibida",de Jacques Demy,um desses artistas não tão lembrados se comparado a outros de sua geração(Godard,Truffaut),provavelmente por ter feito grandes musicais.Como esse "gênero" não é tão "respeitável",figuras como ele, Vincente Minnelli e Kelly-Donen acabam não sendo valorizados como deveriam.Faltaria a eles o tônus grave europeu?Ou umas boas pitadas de um existencialismo mais radical(Truffaut),ou quem sabe a dimensão mais cerebral de um Godard?O fato é que nenhum desses diretores de musicais citados deixam de ser bem graves para bons entendedores.Não lamentemos o "velho mundo" mais do que o necessário.
Jerry Lewis é outro.Cineasta de ponta nos anos 60,fazia algo que poucos cineastas americanos faziam à época com tanta eficiência e espírito experimental.Desprezado em sua terra,foi mais valorizado na França.Seu espelho(invertido,como todo bom espelho) do american way of life incomodava seus conterrâneos,como fiel herdeiro que era de seu cáustico mestre Frank Tashlin.Ficamos a esperar também os filmes desse último no Brasil.Alguns títulos capitais de Lewis já aportaram por essas "bregas", a provar seu gênio.Meus favoritos dos que saíram:"O Otário" e "O Terror das Mulheres".Da parceria com seu mestre,gosto mais do nonsense do "Bagunceiro Arrumadinho",em que a dimensão sentimental equilibra-se muito bem com seu estado de espírito (mui)inventivo.
A outra promessa de lançamento da Lume fica sendo "O Intendente Sancho",do mestre japonês Kenji Mizoguchi,um dos dois maiores de sua terra.Antes disso,um dos melhores de toda a história dessa arte.Pelo que lembro,essa sua prometida obra foi a que mais me arrebatou.
Enquanto isso,aguardamos mais Pialats,que até então se mantém na timidez hesitante de um único lançamento no Brasil(corrijam-me se estiver errado).Aos poucos vamos reivindicando os demais.
Por enquanto,aproveitemos o "Entre os Muros da Escola"(de Laurent Cantet),filme "fresquinho",ainda recente e rapidamente lançado por aqui,a ficar como dica suplementar para os meus "comparsas" professores,os conhecidos e os não.E,claro,para os amantes de cinema.Ou do cinematógrafo?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009





"Como nunca vivi numa democracia,às vezes me pergunto:e se a democracia for isso mesmo?"

"Democracia é eu mandar em você.Ditadura você mandar em mim."



Folga

"No dia de folga o anão e o gigante de circo têm estatura normal."

"O mundo inteiro está assistindo diariamente,e aplaudindo entusiasmado,aos extraordinários espetáculos do Gran Circo Brasileiro,único no seu gênero- meia dúzia de trapezistas e cento e cinquenta milhões de palhaços."

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pequeno esclarecimento("feio" de se dizer ou de se olhar?)




Há pouco tempo nesse espaço falei da estratégia do filme sobre o Lula.Algumas pessoas tedem a confundir as coisas,que quando se esclarece algum ponto capital de alguma estrutura,tudo pareça pessoal.É como alguém afirmar que quando se cutuca algo do Brasil,a evidência seria de ódio pelo país.
Partindo desse pressuposto,não se pode falar de nada,já que todas as relações seriam baseadas em apenas mentiras e superficialidades.Você não pode falar nada de ordem profissional para um colega de trabalho,que será interpretado como sendo pessoal.Prova de amizade seria mentir para o amigo,para agradá-lo(leia-se: agradar a si mesmo com isso),de amor esconder tudo que lhe desagrada à "sua" mulher ou "seu" homem e,claro,os melhores pais seriam aqueles que mimam seus filhos ou bem se omitem quanto a tudo?
Com algumas exceções,caso do Diogo Mainardi da Veja(esse sim,odeia tudo que provenha do país),investigar problemas nesse caso funciona mais como ato de ponderação(problematização)do que de ódio.Se ironizo os chavões de efeito do Caetano Veloso,isso não me impede de gostar dele e em nenhum momento me interessou falar mal do compositor de "It`s a long way","Peter Gast" ou "Jeito de corpo".
No caso da demagogia no governo,isso não é privilégio do PT.Em grande medida,"faz parte" do jogo de poder.Mas nem por isso deixa de ser patético.Ou alguém ainda tem alguma dúvida de que lançar um filme como apologia de um governante,deslavadamente,lavando-o,santificando-o com o Omo publicitário seria,no mínimo,oportunismo dos mais descarados em pleno período de antecipação de uma nova eleição fundamental(ou não)para um país?
Também cansa(e como)essa historinha de que qualquer crítica que se faça ao governo, seja encarada sempre como estratégia golpista.Então,todos agora nos basearemos desse estado de imunidade parlamentar de um governo:imunidade crítica,por meio de um documento chamado atestado de perfeição e iremos nos calar como habitantes de um lindo e maravilhoso regime fascista.
Contrastes servem para dialéticamente contribuir para algum desenvolvimento e não para alimentar ressentimentos naqueles que entendem tudo fundamentados em uma ingênua tese de "predestinados a uma perfeição purificadora".Quando o governo começa a querer colocar tudo por debaixo de sua aba,desde ongs e sindicatos até banqueiros,torna-se algo preocupante para um regime que um dia se pretendeu minimamente democrático.Trata-se sim de uma forma de articulação interna de poder um tanto quanto escamoteadora,que deveria encarar de frente essas problematizações.Sem linhas de fuga.
Não é o caso de fugir dos problemas e relembrar as mil e uma boçalidades do governo do Fernando Henrique.Pois é claro que pra um país com um histórico que temos de governantes,de um Sarney,Collor,passando por FHC,talvez muitos ingenuamente pensem:"Chega.Depois de tanta purgação,chegou a hora da redenção,como uma flor agreste que se santifica".Nem tudo é assim tão simples,nada chega tão prontinho,nem há Messias por essas bandas,sinto dizer.O mesmo no caso de Obama.
À parte tanta firulice de discursos,à parte todo o óbvio ululante e gemente de Nelson Rodrigues,e para não dizer que não falamos das flores,algo no mínimo curioso.Vira e mexe alguém comparece com o discurso pronto de que Lula teria falado palavrões em seu discurso.As dondocas se irritam:"Nunca falei um palavrão em minha vida."Devem ir para o céu por conta disso.Mas Lula,como esteve na Terra,ou na terra,no húmus,não falou sequer palavrão.Como poderíamos dizer "tirar o povo da merda?",de uma maneira perfumada,digamos,respeitosa,quando a própria miséria não o é?Se fosse FHC certamente recorreria a ela com alguma higienista terminologia científica,um calvinista falaria "em castigo dado aos não predestinados",um fundador do neoliberalismo em "ordem natural das coisas",um espírita:compensação kármica para um passado cruel e Sarney viria com mais de seus discursos bestialógicos de praxe.
Desculpas e discursos existem aos montes para tapar esse sol com a peneira.Mas quem vive,in vero,na pele, é que sabe aos montes o que "é a lama,é a lama".Ops,a merda,nua e crua.Sem frescuras e nem mais.

A Crítica(por Diego Assunção)




Sobre a crítica e para os alunos iniciados ou não,um comentário bem preciso do Diego Assunção,extraído do Sétima Arte:

“Crítica de cinema é a arte de amar”, afirmou Jean Douchet, o “Sócrates da atividade”, segundo Louis Skorecki. A frase dele diz muito sobre a profissão como nenhuma outra, começando que ela descarta a prática como uma atividade de indivíduos odiosos e também ignora a idéia de que os críticos são seres que deixam de experimentar os filmes para lê-los, tendo uma visão extremamente racional, como a de um médico legista que disseca um cadáver.

Eu penso que uma crítica não deve nunca ser escrita como uma visão de cima pra baixo da obra, devendo assim obedecer à intenção de proteger a verdade e o sentido internos de uma obra contra todo e qualquer historicismo, biografismo e psicologismo.

Como Jacques Derrida, acredito que a grande virtude de um crítico está em reconhecer a força da obra, a força do gênio que a cria. Assim, o trabalho do crítico é o de fazer com que a potência do artista resida no texto.

Se crítica é a arte de amar, de prolongar o impacto de uma obra, creio que ela deve ser escrita um pouco como uma carta de amor e, se possível, ir além: tornar-se um testamento, um manifesto político, uma declaração de guerra.

Um crítico luta por convicções semelhantes às que o cineasta português Pedro Costa persegue com os seus filmes, a de “nunca lutar contra o capital, contra a barbárie, contra o país”, nada disso, mas lutar por alguma coisa, “pela memória, pela justiça, pelo amor”.

É claro que a atividade crítica anda desprestigiada, mas o bom cinema também está desacreditado. A verdade é que o público não anda muito interessado nos filmes que vão além do passatempo, aí fica realmente difícil a reflexão competir com a indução, a inquietação confrontar a conformidade, a crítica de cinema se sobressair à publicidade."

domingo, 13 de dezembro de 2009

Mann e o corpo a corpo




Uma entrevista muito interessante com o cineasta Michael Mann( de Miami Vice,Colateral,Inimigos Públicos)no "Ilustrada no cinema".
Primeiramente um excerto em que ele engrossa o caldo da questão da autoria nessa arte,provocando os mais puristas de plantão:

"Hoje, temos menos problemas trabalhando com um grande estúdio do que com um produtor independente. Com um independente você é obrigado a lidar com dez produtores,15 conselheiros que se consideram artistas e toda essa merda".

Sobre o estilo:

"Pergunta - Você é um estilista, um formalista. Para você o estilo é mais importante que a história?

Mann – Um filme estiloso cuja história é fraca atrairá nossa atenção durante cinco minutos, não mais. Um cinema puramente formalista é algo imaterial, não tem nenhum sentido."

Sobre a velha dicotomia demasiado enfadonha em que se digladiariam cinema como arte versus cinema como entretenimento.Pingos nos is:

"Mann: Para o estilo enquanto tal, eu não estou nem aí. Assim como estou me lixando para a maneira como as pessoas me percebem: como um artista ou um “entertainer”... Para mim, o crime capital de um realizador é se tomar por isso ou aquilo. Se me tornasse vaidoso e me observasse filmar, eu me condenaria a um fracasso certo e total! Pensar em seu próprio estilo não passa de sedução imatura."


Há um tempo nesse mesmo espaço cheguei a dizer do primeiro impacto que foi ver "Inimigos Públicos" como sendo o de alguém que toca e se sente tocado por "puros rostos("Faces"),Sombras("Shadows"),de uma maneira quase tátil".
Em suma,como que sendo um verdadeiro luxo para os sinestésicos,por excelência.
À parte as muitas distinções entre Mann e um filme de Cassavetes(diretor de "Shadows" e "Faces"),ambos lidam com esse mesmo estado de troca físico-amorosa entre diretores e espectadores.
Para Silviano Santiago,a obra de Drummond como a de Clarice Lispector e de Graciliano Ramos são um caso único na literatura brasileira por essa busca do corpo do leitor por intermédio da palavra,o que consistiria em uma atitude de aproximação erótico-amoroso via signo verbal e os seus silêncios.
Como isso se daria no signo visual do cinema de Michael Mann?
"Mann – O recurso digital me proporcionava a sensação de estar vivo em 1933,de ser contemporâneo da época no filme,de quase poder tocar na gota d’água que cai no carro preto.... Não queria que o público visse meu filme como um truque retrô."

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Rossellini,os profetas e a Linguagem




Foi falado aqui num breve histórico sobre Roberto Rossellini algo como "fulminação da alteridade" e logo li no blog do Júnior sobre religião algumas visões interessantíssimas sobre o divino e seus tabus.
O que se dá,por esse ângulo,no cinema de Roberto Rossellini é algo que se assemelha a uma parábola.Aliás,iria falar algo sobre o magnífico Joelho de Claire,de Eric Rohmer,do que diz respeito a esses recursos de linguagens oblíquos,quando deparei-me com esses textos.Havia acabado de transcrever,ainda que de maneira introdutória,algo sobre o cinema do mestre italiano,quando eles me caíram como luva.Ou ponto de partida para demais observações.
O que chamei de "alteridade que fulmina" no comentário abaixo sobre o cinema de Rossellini,diz respeito tanto aos protagonistas quanto aos recursos próprios à concepção de direção("e eis que o Espírito Santo será derramado sobre vós").
Longe de mim encarar a arte como forma de redenção,ou algo do tipo.Mas há rastros disso em certos artistas,da Gravidade e da Graça,como já havia falado sobre o Janela indiscreta,citando Simone Weill.
Em Rossellini,o que haveria de moderno?Uma espécie de pós-linguagem oficial de cinema,à parte de seus recursos habituais de empatia,entre outras.Uma espécie de pós-mecanismos de visibilidade entronizados,dentro do que esses despertam como sendo "verdades",ou identificações mais imediatas com ideias ou personagens,etc.
Segundo esses textos sobre religião do blog do Júnior é o que se dá justamente com os profetas nesses estados de alteridade,desse "outro" que vem tomar conta das palavras.
No caso dos profetas,o signo verbal.No caso de Rossellini,o imagético,como que não encerrado dentro dessa linguagem que é lei:linguagem oficial humana de um lado.Linguagem desse cinema e dos profetas,do outro.
Jesus,por exemplo, que inaugurou a Graça por excelência,foi morto bem menos pelos romanos do que pelos doutores da lei. Que é onde questionamos o lugar da religião como disseminação também de truísmos,de farisaísmo dos legisladores de leis mais humanas do que divinas.Afinal,foram esses religiosos que mataram o principal profeta,filho de Deus.
Para começar ele só falava por parábolas,o que era escândalo para muitos.Esse recurso sendo usado pelo fato das coisas divinas não caberem na linguagem,dentro da concepção de uma relação entre linguagem humana e lei,segundo mesmo Jacques Lacan.
Decerto existem outras leis,outras linguagens que os religiosos da época não compreendiam.Para eles,escândalo foi Jesus trabalhar no sábado ou acolher aqueles estigmatizados pelo seu povo,o judeu.
Ao quebrar as fronteiras enraizadas da linguagem,ele(Ele)era avesso aos tabus.E foi morto como homem tabu,tamanha sua alteridade,sua forma de comunicação "outra".Nem precisa ser Jesus,profeta para ser queimado como "outro"(a História assim nos mostra muito bem)em praça pública ou privada.
Estamos lidando com um mundo que não suporta ainda nada "extra",apesar do discurso oficial de pluralidade.Pluralidade desde que muito bem etiquetada em escaninhos bem definidos.
Será que esse mundo padronizado,em que os "governos de esquerda" comportam-se também como arrebanhadores administrativos,suportariam o discurso de Cristo por parábolas?Desconfio que muitos religiosos seriam os primeiros a jogar pedra.
Bem.E o que isso tem a ver com Rossellini?Como uma espécie de profeta nascido na manjedoura do cinema,ou seja,com parcos recursos,inaugura,sem autocomiserações,seu reino do cinema moderno,provocando dissensões dentro de uma concepção mais oficial de cinema,do mau ou do bom.
Quando realiza Alemanha ano zero é quase apedrejado por trair os princípios do neo-realismo.Princípios:leia-se,tabus.Claro que seu cinema interessava-se por muito mais que "mostrar".Desde o início bem mais que um ocupante da escala "social",assim como Jesus também provocava a ira dos amigos por não querer tomar o poder,grande relicário da linguagem humana enraizada.
O social em Rossellini só existia por haver a dimensão de atitude profética,ou seja,embrenhada em outras dimensões,mais escorregadias. Tanto que quando realiza Francisco é chamado de carola.No caso dos filmes com a Ingrid Bergman,um "anti neo-realista".
Se seus heróis eram mesmo possuído por visões,como dizia Gilles Deleuze,a maior dessas era a de encenação.Nesse ponto,ambos(diretor e personagens)se igualavam,pois tomados por algo que nunca coube muito bem dentro do quadro.O visível tornado invisível,como a heroína da obra-prima Europa 51,que se torna irreconhecível pelos demais:Ingrid tornada tabu pelos próprios familiares("Um profeta nunca é reconhecido em sua própria terra".Ou:"Eu vim para separar,pai e filho,marido e esposa".Todas frases de Jesus,retiradas da Bíblia).
A protagonista de Europa 51 não cabe mais na linguagem.Como que possuída por uma forma radicalmente outra de encarnação,de enraizamento no universo,ela some a nossos próprios olhos e de seus familiares,desvanescendo(Relação terra/céu).
Como a mesma Ingrid Bergman em Stromboli que,após galgar os montes para fugir da ilha,é fulminada repentinamente pela extrema alteridade que vê baixar sobre si.Novamente temos monte como terra e erosão,mas também como trânsito para o céu:lugar onde os profetas bíblicos encontravam o alter maior,Deus.
O milagre e a alteridade em Rossellini se dão nesse trânsito para "o fora da linguagem",o visível nesse trânsito para o extracampo.Extrema interioridade da Terra-terra despojando-se para os "céus".
O que é magnífico desperta certo temor de visão,não cabendo no enquadramento.Nessa arte,o cinema está sempre nesse aquém ou além da linguagem.Por isso,em O Messias,Rossellini nem se dá ao trabalho de mostrar a morte a a ressurreição do Mestre,vulgarizando-as.Totalizando-as.Basta,ao final,alguém olhando para um céu esvanescente para que parcialmente compartilhemos do milagre.Ou quando morre o menino em Alemanha ano zero,a câmera logo busca um outro ângulo,uma imagem acima a flagrar a epifania de um estado de movimento de um veículo que transporta outras pessoas.Imagem a um tempo escorregadia e paradoxalmente muito precisa.Certas ações e visões não cabem na linguagem humana ou oficial.São outros(Outros) imensos.Basta uma lépida e definitiva trepidação de um movimento interior tornando-se exterior,e vice-versa:
Terra e céu.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Listinha Número 2








Quando chove ininterruptamente,pode-se haver uma resignação ao mofo e suas serpentes e lêmures.Ou quem sabe brincarmos com elas,quando não há mais tempo para cantar e dançar na chuva como Gene Kelly.
A maior evidência de que um apocalipse estaria por essas bandas de cá é a sessão dupla do 2012 no centerplex na cidade de Lavras,Sul de Minas,não dando maior espaço para um filme a mais,que não seja um marketeiro Lua Nova.
Ao invés de correr para o shopping em busca do mais do mesmo,eu e minha esposa fugimos para uma lanchonete-café da cidade chamada Delícias da Casa(se não me engano),que veio incrementar com excelente atendimento e deliciosa atmosfera,a um tempo despojada e algo cosmopolita,nossa noite de Sábado.
Foi nesse bendito lugar que perpetramos nossa listinha de cineastas,entre sucos e sonhos.
Como bom cavalheiro(talvez de fachada),a da Dani pra começar,no melhor estilo The Girl is mine,mas a lista é dela:

Charlie Chaplin
Alfred Hitchcock(por esses dois nomes iniciais em sequência,permito-me um comentário:inglesinha,nem um pouco...)
Roberto Rossellini
Howard Hawks
Vincente Minnelli
Jean Renoir
John Ford
Clint Eastwood
Michelangelo Antonioni

(Quando fazíamos cada uma delas nos guardanapos,naturalmente não víamos a do outro).
A de meu punho:

Howard Hawks
Jean Renoir
Eric Rohmer
Roberto Rossellini
Vincente Minnelli
Alfred Hitchcock
King Vidor
Charlie Chaplin
Clint Eastwood


Uma foto(a segunda) é do cineasta francês Jean Renoir,filho do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir.
A escolha foi por conta de seu nome estar muito bem representado aqui e também por uma homenagem afetiva a seu filme La Bête Humaine,que tendo sido minha penúltima aquisição, mesmo assim não esperava que tanto me impressionasse nessa revisão em DVD.
Momento em que seu dom de de acolhimento dos seres-personagens,diante da impassibilidade da natureza e dos "fatos",não redunda em nada menos do que inteira obra-prima.

Ps(sobre a outra foto):Aguardo com certa ansiedade a última aquisição:o lendário A Tomada do poder por Luís XIV,de Roberto Rossellini(que em dvd no Brasil saiu com o nome de Absolutismo-A Ascensão de Luís XIV),o cineasta visionário italiano que traumatizou positivamente o cinema do pós-guerra.
Esse lançamento vem cobrir mais uma parcela de sua obra de quando ele migrou do cinema para a TV.Sua fase televisiva é menos conhecida,mas a se julgar por alguns títulos como Sócrates ou O Messias,é igualmente visionária.
Sua obra antes do clássico Roma,Cidade Aberta,filmado todo sem estúdio e fazendo milagre com parcos recursos,era adaptada ao regime fascista em voga.Com Roma veio o corte para uma postura mais urgente diante dos fatos e um posicionamento inovador de cinema.Pela recusa,entre outras,a uma empatia mais óbvia e imediata com o espectador via protagonistas ou via arcabouço cenográfico dos estúdios.A empatia em Rossellini não é buscada em princípio.Mas se não a procurava,ele bem a encontrava,como dizia Picasso.
Com Paisà,uma obra-prima de contos a partir de seres aparentemente anônimos e Alemanha ano zero,fecha com chave de ouro a chamada trilogia da guerra.
Com Ingrid Bergman(sua então esposa)uma fase muito rechaçada à época e hoje muito admirada,contendo os consagrados Stromboli,Europa 51(um de meus filmes favoritos,se não o favorito)e Viagem à Itália,que provocou assombros na Cahiers du cinéma pela desdramatização de uma história de amor entre o desgaste da "queda" e o resgate de um sentido de união para um casal.Isso tudo entre um Francisco,arauto de Deus(outra obra-prima)aqui e outra pérola acolá(Era noite em Roma,...).
Seu último momento é da da fase televisiva, por meio da qual pretendia educar o povo,contando a história de toda uma formação ocidental,inclusive de pensadores,via sua concepção visionária de arte,sem fáceis didatismos.Ao migrar para a tv,Rossellini fugia ao modelo espetaculoso do cinema que ganhava força com o tempo.
O diretor até o fim permaneceu fiel à sua recusa da "falsa empatia",optando por um rigor de extremo despojamento de estilo.Essa dureza do relato permitia as mais infinitas nuanças nas entrelinhas e no entorno de cenas.E ao cabo de suas jornadas,o resultado era não menos que uma empatia,ainda que outra que a habitual,não menos intensa,talvez até mais,em que o intelectual italiano deixava bem claro que se seu alvo inicial era a inteligência,essa abruptamente tornava-se fulminação da alteridade:um "outro" subterrâneo que se colocava repentinamente à superfície,em meio às bordas do plano de cinema,ou dos personagens.
Afinal,e um tanto paradoxalmente,o resultado do cinema de Rossellini,sua espiritualidade tão decantada,estava em total acordo com sua inteligência suprema do pathos:a emocional.E mais por ela do que por qualquer outro motivo,qual seja da ordem dos recursos,que sua obra permanece intacta como uma das mais instigantes do chamado Cinema Moderno,além de ser provavelmente a mais fiel porta voz dessa sensibilidade.
Sua obra televisiva é mais uma das provas de seu visionarismo.Um desses mal assimilados ainda hoje e que o veículo tv de nossos dias custará muito a conseguir acompanhar,estar à altura.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Instantes listados à luz de velas





Eu e a Dani(ma femme)ontem à noite numa lanchonete-café,em meio a um climático tempo chuvoso,decidimos bolar umas listinhas.
Não houve pretensão de "verdade".Somente algo que correspondesse ao momento afetivo de cada um de nós.
A de música popular da Dani:

Ira
Burt Bacharach
Velvet Underground
Tom Jobim
Chico Buarque
George Gershwin
Ennio Morricone
Cole Porter
Noel Rosa
Cartola
Paul McCartney

A minha:

Tom Jobim
Burt Bacharach
Richard Rodgers
George Gershwin
Paul McCartney
The Kinks(Ray Davies)
Henry Mancini
Ira
Cole Porter
Cartola
Chico Buarque


A foto é do grande mestre,o maestro Burt Bacharach,nossa coincidência como segundo nome.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Sabotagens




Com os reveses do caso Enem,houve um certo esforço geral em querer desacreditar o primeiro projeto de avaliações no Brasil minimamente sensato:as velhas resistências de sempre quanto à algo que pressupõe desenvolvimento.Com o Enem as avaliações tendem a valorizar menos mecanicismo e mais reflexão e interpretação.Tudo isso é muito novo e a "manada" geral(leia-se gado)procura de todas as formas sabotar.
Como ficariam os donos de cursinhos,sempre ocupados em adestrar "gado" para o vestibular?Sempre me perguntei,uma vez passada essa etapa da vida de muitas pessoas,o que fazer com o que foi "ensinado"?Joga-se tudo janela à fora.Já que o tal "conhecimento" somente serviu para aquelas provas.
O Enem é o primeiro esforço digno de acabar com isso,já que hoje quase todas as escolas particulares só se preocupam com esse adestramento:Conhecimento descartável.Peraí,conhecimento?Adestramento,repito.Como se treina um cão,repetindo fórmulas,ensinando macetes.
Lógico que as resistência vêm a tona,com os melhores- piores sabotadores compenetradíssmos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Janela Indiscreta(De Novo)



Janela Indiscreta ou o cinema segundo Alfred Hitchcock:as projeções do fotógrafo(James Stewart)+ a presença do corpo no mundo(Grace Kelly).Para o diretor inglês,o cinema ocorre nesse acoplamento em que ideia e matéria se interceptam a compor os limites do mundo-ficção,ou bem da ficção- mundo.
Em outros termos ou sub-planos, o cinema define-se moralmente como o lugar da "Gravidade e da Graça"(Simone Weill).A Gravidade presente no fotógrafo Stewart,que carrega consigo a forte suspeição e persecução do olhar siderado + a Graça=Grace Kelly,sua namorada,que entra com a leveza e o plainar dos corpos,tal como na cena crucial em que ocupa o apartamento do assassino para a um tempo o orgulho e a angústia do namorado que supõe dessa vez perdê-la para sempre.
Em Janela Indiscreta(como em Um Corpo que Cai), fica mais do que nítido que, em Hitchock,o cinema é o lugar da desconstrução e da alquimia atualizadas,acopladas para o "Bem" ou para o "Mal."
No primeiro,o protagonista é um homem noturno,que mal dorme para vigiar os habitantes do outro prédio,tal como um "vampiro" baudelaireano a querer sugar a essência dos seres,compondo para si mesmo os sinais da trama das correspondências:Pintor-fotógrafo.
Grace Kelly, de frívola burguesa ocupada com a moda, dá seu salto definitivo.Encontra a ponte para o outro lado da vizinhança, em que escala com a ligeireza e o flutuar de alguém que se descobre e se desdobra como avesso,corpo angelical.Tanto mais que,após revirar as provas do suposto assassinato,que teria desencadeado(também supostamente)as atitudes de suspeição do marido,entrega o mesmo indiretamente ao assassino,escancarando com toda a graça e Graça um nítido sinal: a aliança.Prova do crime e possibilidade concreta de união para o casal.Desconstrução do amado e alquimia moral.
No universo de Stewart a casa do crime seria também a hesitante moradia das projeções do fotógrafo.Tirar,em meio a um cenário cinematográfico do crime,uma aliança seria menos trabalho de ourives do que contundente alquimia de sentidos,de sinais imagéticos(não confundir com fácil simbolismo).Nesse sentido,o cinema de Hitchcock encontra-se consubstanciado nesse definitivo plainar de Kelly,que desconstrói o amado a seus próprios olhos.Será permitido dessa vez ao fotógrafo obsessivo ver no espelho do crime e do amor sua própria faceta,como o outro lado do espelho em que tanto se projetava e até residia.Grace Kelly,ao encarnar o avesso de si mesma,expõe o do amado para ele.
Víamos quase todo o tempo o que Stewart via de seu prédio.Agora é a vez do espelho olhar para o fotógrafo,justamente quando as imagens de Hitchcock buscam outros focos.Exatamente no momento em que a solteirona do outro andar escapa do suicídio,devido à conclusão de uma composição que o pianista do outro andar tentava à todo custo aprimorar durante todo o filme.Essa composição a detém,fazendo com que outros mundos intervenham na ação,trazendo novas perspectivas,menos obsessivas e mais dinâmicas,sendo conduzidas por um maestro de imagens e pelo corpo esguio da namorada.
Após esse jogo de trilha sonora efetivado pelo pianista do outro andar,que nem sabia o que estaria se passando de suspense no prédio,ao cabo desse momento ápice da sinfonia de Hitchcock,só poderemos ver nosso "herói" precipitando-se na queda-leia-se- Queda-de seu próprio andar.
A alquimia de Hitchcock(e de Grace Kelly)o desconstruiu,mas o primeiro foi também compassivo,salvando-o por um triz.Dessa forma(antes Forma),ideia e matéria consubstanciadas em Gravidade e Graça deixaram as marcas nesse filme brilhante com aparência de mera brincadeira.Um momento em que os rastros simbolistas de um Charles Baudelaire fizeram-se modernos em uma arte cheia de segredos,carregada de entrecruzamentos,os mais expressivos e de natureza.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Confusões 2




A outra parte da reportagem fala de algumas curiosidades interessantes,como Margot Kidder(a namorada do Super-Homem)ensinando Steven Spielberg a lidar com as mulheres.
Se aprendeu ou não,não sei.Sabemos,no entanto,que sua entrada(penetração),junto a George Lucas,no mundo de Hollywood inaugurou a era dos blockbusters e daí pra frente o cinema norte-americano,assim como o conhecíamos,foi paulatinamente perdendo sim seu lugar de arte,de algo,digamos,mais adulto para a sintonia com algo mais adolescente.Mas não poderíamos simplesmente responsabilizá-los, esquecendo o papel dos novos engravatados,leia-se executivos,nisso tudo.
De Spielberg gosto particularmente bem do Encurralado,mas com o tempo foi havendo uma adequação cada vez maior de tudo à nova sensibilidade televisiva e era necessário pegar o espectador mais desconcentrado da tv por meio de pastiches da narratividade épico-aventureira ou melodramática de Griffith(o codificador do classicismo no cinema),ou de seriados de tv do passado,acrescentando a isso os efeitos especiais,que se tornaram muito mais do que um recurso,mas um verdadeiro fetiche dos tempos,o deus platinado do cinema.Em perfeita sintonia com aquela tv,que era(e permanece)como que sendo um totém nas "prisões domiciliares" burguesas ou pequeno-burguesas.
A vantagem de Lucas e Spielberg é que tinham certo talento de narradores e,algumas vezes,uma real crença em seu material.Sabiam,por vezes,manipular bem as lições de Griffith da inserção da emoção no ato da narratividade,sem agressões mais óbvias ao espectador,ou telespectador.
Mas a partir daí a cisão entre arte e entretenimento foi-se tornando cada vez maior,a tal ponto que falar em arte hoje em Hollywood parece a muitos um contrasenso.Ou um luxo.
De maneira que aquele que quer dizer que não aprecia os ramerrames,as mesmices da indústria,tão logo busca uma maneira de se auto-afirmar:eu gosto mesmo é de filme europeu,asiático,etc.Como se muitos desses filmes não pudessem ser também fraquíssimos.Como se não houvesse uma enorme diferença,por exemplo,entre um Abbas Kiarostami(esse sim, um grande artista)e a maior parte dos ditos filmes iranianos.
Grande parte da nova geração cult precisa desse tipo de "afetação" talvez por não saber que alguma vez separações tão brutais não existissem.Que muitos que um dia procuravam divertimento,se habituavam também com arte,e vice-versa.Sendo esse tipo de posicionamento,assim como as declarações do autor do livro sobre a contracultura no cinema,mais um dos sintomas de uma esquizofrenia que foi se impondo com cada vez mais força no tempo.

Confusões




Vendo uma reportagem sobre o livro de Peter Biskind sobre a geração da contracultura em Hollywood,uma frase de efeito me pareceu fora de lugar.A de que diretores como John Ford se preocupavam em entreter, enquanto a turma de Scorsese,Coppola,Dennis Hopper e muitos outros estaria interessada em algo artístico e pessoal.Confesso que até hoje não consigo entender essas dicotomias.É como aqueles fãs de rock que querem colocar um Paul McCartney num lugar secundário por fazer algo pop.Consideram que o pop é o lugar das concessões e o rock, o espaço por excelência da autenticidade.
Esse tipo de maniqueísmo é, no mínimo,tosco e acomodado.John Ford não é meu diretor favorito,mas tem muito de pessoal.Basta conhecer bem sua obra e ver como planejava seus planos,como durante a evolução de sua obra as preocupações iam se depurando e se reconfigurando com considerável coerência( na falta de uma palavra melhor).Mas isso talvez interesse menos.
Ao assistir a um filme como Sem Destino, o que vemos é uma sintonia com aqueles tempos,da mesma maneira que um filme de John Ford poderia muito bem estar sintonizado com as épocas precedentes,ainda que trabalhando a partir de mitos.Acontece que Sem Destino trabalha com o mito hippie,assim como o Poderoso Chefão com outro deles.
Cada época apresenta suas representações.Não se trata de mentira ou "realismo",mas sim de que o trabalho feito com arte atravessa seu tempo.Caso tanto de um John Ford quanto de um Scorsese em muitos filmes.
Por outra,não podemos nos esquecer de que um Poderoso Chefão,entre outros,guardava muito do espírito de estúdio e que os bons filmes da dita contracultura eram igualmente, em sua maioria,muito divertidos e vibrantes.

domingo, 29 de novembro de 2009






Os Kinks foram aquela banda inglesa da época dos Beatles, que não tiveram a mesma sorte dos Fab Four em conseguir adentrar o terreno norte-americano.A banda de Lennon e Macca quando lá chegaram,conseguiram a propulsão definitiva para a exportação/divulgação de sua obra para o restante do mundo.Já a banda de Ray Davies, tendo lá chegado, encontrou resistências ditadas por rígidas leis protecionistas.
De qualquer forma,tanto os Beatles influenciaram os Kinks quanto os Kinks os primeiros.
O renascimento do pop inglês nos anos 90 dizia ter tido influência tanto de uma quanto de outra.Mas até hoje poucos sabem quem foram os Kinks.Uma banda que antecipou o hard pelo riffe de You Really Got Me?,embora não tenha dado maiores continuidades a ele e nenhuma dessas bandas tenha tido um décimo de sua elegância dandy.
Uma banda que parecia pré-punk bem antes dos Stooges.Que poderia ser glitter(Lola)ou bem art-rock(Arthur),ou mesmo fazer lindas e sofisticadas trilhas de filmes(Percy).
Antes de tudo,uma trupe que sabia unir a melhor pegada instrumental aos melhores devaneios experimentais,sem perder a finesse da crônica poética,da sátira de costumes avant la lettre para o pop(os Beatles ainda não o faziam),de comentários agridoces.
Uma banda que se impôs com o furor de sua exatidão notada nas batidas secas e precisas de sua batera, ou na guitarra mais rasgada,de extremo feeling do irmão de Ray Davies,Dave.Tudo isso somando-se ao tom algo cáustica do compositor,que nem por isso abria mão de seu enorme lirismo britânico,seja na empostação de music-hall(e alguém ainda quer saber de onde veio parte considerável de um David Bowie,anos 70?),seja,sobretudo,por sua enorme genialidade melódico-harmônica.
Muitas outras coisas poderiam ser ditas.Na verdade,iria somente postar uma letra,mas acabei falando demais(é sempre assim.Começo pensando em um comentário e a coisa se estende para além de muá).Meu disco favorito é o Village Green Preservation Society,seguido talvez do Something Else by the Kinks que, mais britânico impossível.Ou o Face to Face, que alterna com perfeição o melhor rock primitivo com as elaborações mais nuançadas.
A seguir a letra de um single(compacto)de peso,à frente de seu tempo.Na verdade,ninguém fez singles como eles dentro da proporção quantidade/qualidade.Talvez até nisso eles tenham sido únicos e "marginais".

A Well Respected Man

'Cause he gets up in the morning, Porque ele acorda de manhã,
And he goes to work at nine, E ele vai trabalhar às nove,
And he comes back home at five-thirty, E ele volta pra casa cinco e meia,
Gets the same train every time. Pega o mesmo trem toda vez
'Cause his world is built 'round punctuality, Porque seu mundo é construído ao redor da pontualidade,
It never fails. E nunca falha

And he's oh, so good, E ele é tão bom,
And he's oh, so fine, E ele é tão legal
And he's oh, so healthy, E ele é tão saudável
In his body and his mind. Em seu corpo e sua mente
He's a well respected man about town, Ele é um homem muito bem respeitado na cidade,
Doing the best things so conservatively. Fazendo o melhor tão conservadoramente

And his mother goes to meetings, E sua mãe vai à encontros,
While his father pulls the maid, Enquanto seu pai brinca com a empregada,
And she stirs the tea with councilors, E ela mexe o chá com os conselheiros,
While discussing foreign trade, Enquanto discute o comércio estrangeiro,
And she passes looks, as well as bills E ela dá olhadelas tanto nas contas quanto
At every suave young man Em todos os caras educados

'Cause he's oh, so good, E ele é tão bom,
And he's oh, so fine, E ele é tão legal
And he's oh, so healthy, E ele é tão saudável
In his body and his mind. Em seu corpo e sua mente
He's a well respected man about town, Ele é um homem muito bem respeitado na cidade,
Doing the best things so conservatively. Fazendo o melhor tão conservadoramente

And he likes his own backyard, E ele gosta do seu próprio jardim dos fundos
And he likes his fags the best, E ele prefere as suas bichas,
'Cause he's better than the rest, Porque ele é melhor que o resto,
And his own sweat smells the best, E seu próprio suor cheira melhor
And he hopes to grab his father's loot, E ele espera agarrar o lote do seu pai,
When Pater passes on. Quando Pater for dessa pra uma melhor

'Cause he's oh, so good, E ele é tão bom,
And he's oh, so fine, E ele é tão legal
And he's oh, so healthy, E ele é tão saudável
In his body and his mind. Em seu corpo e sua mente
He's a well respected man about town, Ele é um homem muito bem respeitado na cidade,
Doing the best things so conservatively. Fazendo o melhor tão conservadoramente

And he plays at stocks and shares, E ele brinca em estoques e ações,
And he goes to the Regatta, E ele vai à Regatta,
And he adores the girl next door, E ele adora a vizinha,
'Cause he's dying to get at her, Porque ele está morrendo para chegar nela,
But his mother knows the best about Mas sua mãe entende mais sobre
The matrimonial stakes. As apostas de casamento

'Cause he's oh, so good, E ele é tão bom,
And he's oh, so fine, E ele é tão legal
And he's oh, so healthy, E ele é tão saudável
In his body and his mind. Em seu corpo e sua mente
He's a well respected man about town, Ele é um homem muito bem respeitado na cidade,
Doing the best things so conservatively. Fazendo o melhor tão conservadoramente

sábado, 28 de novembro de 2009

Patéticas safadas




Esse novo filme sobre o Lula deve ser o coroamento de uma demagogia que despejou seus ranços por todos os lados em dois mandatos.Parece-me qualquer coisa que poderia ser produzida no Estado Novo.
Provavelmente verei,mas para sentir raiva.
E essas empresas que o estão financinado, tipo Camargo Correia?É a cara de uma atitude de um paternalismo extremo frente aos mais diversos setores da sociedade,os mais opostos.É o governo que tudo traga para si,das Ongs e sindicatos(que perdem qualquer independência)a uma Camargo Correia da vida.
Parece mais um desses esforços sob "legitimação" de "Pai dos pobres"de trazer qualquer coisa para um único seio:ricos e pobres,mentirosamente conciliados por meio de um inchaço publicitário e sob o pretexto aqui de arte,de "cinema".Uma tentativa de legitimar o ilegítimo.Esforço publicitário se passando por "cinema".Mobilidade social individual por mobilidade global e una de toda uma nação.(Todos os Outros cooptados para o Reino do Mesmo).
Reflexo talvez da confusão entre governabilidade e sonho pessoal de poder,democracia e populismo,mas sobretudo,pobreza pretérita como purgação para o "Reino dos céus".
Agora todos os setores da sociedade estarão,em tese,cantando suas Aleluias em praça pública(os shoppings e seus derivados)dentro desse estado de espírito de uma falsa unificação,sem contrastes.
O governo do PT atira para todos os lados,precisa agradar a todos como um Pop Star que se alimenta das farinhas mais singelas às mais "refinadas".De camelôs à banqueiros.Don Quixotes são mais adaptáveis do que pensávamos.
O pragmatismo faz parte da política,sabemos. Mas o que talvez esse filme deixe mais evidente é o que seria o máximo de uma estratégia não administrativa ou de projetos de horizontes.Sonho mais publicitário do que proprimente artístico,cinematográfico,político ou cultural.
A estratégia de uma integração mais para integralismo(a camada conservadora do nacionalismo modernista que daria em Plínio Salgado),guardadas as devidas proporções,do que para uma concreta abertura democrática que fortaleça um país a partir de uma instigação à certa independência de forças e pensamentos.
Que é tudo que certos governos preferem negar ou rejeitar.

O cinema iraniano de Abbas Kiarostami



Nessa espécie de pós-tempo,em meio aos escombros da história,"revoluções" vanguardistas e contra revoluções anulam-se.
Resta ao Abbas Kiarostami,de Gosto de Cereja, o registro da força de uma poeira fundadora.Quem sabe, seu ethos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Factual




A curva compõe o hálito do dia
Da noite intempestuosa
Tempestades caem,racham a marmórea
Cidade que se dissolve esplêndida

Brota o dia com suas ofertas gratuitas
Renovam-se as curvas
Encantadas ou presentes de grego

Tatuagens no crânio
Botâmica enfeitiçada
Por vezes muda
Por vezes levantada

São grelhas,átomos no chão que se evapora
Sensação de gemido
Órgãos contidos

Beija o ar, o céu
Na terra que se desdobra
Lentamente
Surdina de sol poente

Encantamento de sibila
Regatos encantados que te admiram
Te gostam,te sentem

Como uma suave aderência
No entre-lugar
Sem ruminar
Ou escancarada latência

Somente um gostar


Alessandro C.

domingo, 22 de novembro de 2009

Marginália 2



A sombra da noite é áspera como o
Sol que a todos arremata
Simbiose no dia,tesouros amorosos
Abertura ao mundo caído
Proteção de "papai" dia e noite adentro
Longanimidade
De pouca e muita idade
Na cidade

O poeta é um angustiado
Cheio cheiro de farrapos
Reluzindo num topo de abismo
Sede de sentido
Multi sentidos
Entoando a canção

O repente repetente
Na vida de amorosos
Multi ação

Alessandro C.

sábado, 21 de novembro de 2009




A música do Ira é continuadora da linhagem do pop inglês e levando-se em consideração o período em que teriam iniciado a carreira,a principal referência era (muito provavelmente) The Jam.Embora o Ira me pareça melhor.
Depois de alguns lamentos quanto ao vocalista Nasi ter "escapado" da banda,uma lembrança de que o gênio da empreitada,tanto em composição quanto em execução, chama-se Edgard Scandurra. E isso,claro,não significa nenhum demérito para os demais.
Aqui uma letra que ainda pretendo trabalhar com os alunos.Aliás,o ideal é mesmo ouvir a música.Mas quando li seu trecho no momento reflexivo da escola,provocou impacto certo.E fica a pergunta:Quantas bandas conseguiriam tamanha precisão,sem comprometer em nada sua enorme elegância instrumental?

É Assim Que Me Querem
IRA!
Composição: Edgard Scandurra

Estou sonhando de olhos abertos
Estou fugindo da realidade
Todas as cervejas já bebi
Todos os baseados já fumei
O que há de errado no mundo
Meus olhos já não podem ver
Eu estou do jeito certo
Pra qualquer compromisso assumir

É assim que me querem
Sem que possa pensar
Sem que possa lutar
Por um ideal
É assim que me querem
Ao ver na TV todo o sangue jorrar
E ainda aprovar
A pena capital
A pena capital

Estou sonhando de olhos abertos
Estou fugindo da realidade
Todas as cervejas já bebi
Todos os baseados já fumei
E o que há de errado no mundo
Meus olhos já não podem ver
Eu estou do jeito certo
Pra qualquer compromisso assumir

É assim que me querem
Sem que possa pensar
Sem que possa lutar
Por um ideal
É assim que me querem
Ao ver na TV todo o sangue jorrar
E ainda aprovar
A pena capital
A pena capital

É assim que me querem
É assim que me querem

E me vendem essa droga
E me proibem essa droga
Para os desavisados poderem pensar que o governo combate
Invadindo a favela
Empunhando fuzis
Juntando dinheiro corrupto para a platina no nariz

É assim que me querem
Sem que possa pensar
Sem que possa lutar
Por um ideal
É assim que me querem
Ao ver na TV todo o sangue jorrar
E ainda aprovar
A pena capital
A pena capital

É assim que me querem
É assim que me querem
É assim que me querem
É assim que me querem
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Balanço da Helô




Lendo uma entrevista com a Helô Buarque,ela faz um balanço de Maio de 68 chamando sua geração de prepotente.Até concordo,mas vejamos:Seria possível reivindicar algo,seja os tais direitos civis,seja mais liberdade de expressão e cia usando de muita humildade?
Ou a ditadura militar no Brasil também não usou de prepotência?Pior,ainda contou com um grande apoio de seres com índole de escravos.
Certo,Mao e Cia..quer algo mais arrogante?
Por outra,pra dizer que se tratava de uma geração prepotente,não podemos deixar de lado o hoje.Ou seja, a quantidade impressionante de alunos com sentimento de onipotência e falsa auto-suficiência,mas com um detalhe:sem nunca ter pego um livro na vida(ou pelo menos,um livro mais substancial)e ainda com 0,5 por cento de vivência.
Por esses dias fiquei sabendo que o cara afirmou categoricamente:Que é isso, professora?Os Beatles inventaram foi a bossa-nova.
Disseram-me também que ler é coisa de quem não tem o que fazer.Acredito que jogar videogames,ver tv,etc,então seria.Alguém chegaria para uma criança para dizer que sua atividade lúdica não serve para nada?
Claro,dentro da lógica produtiva essa infância deve ser cortada o mais cedo possível para tão logo ser substituída pelo eterna adolescência,ágrafa e super antenada com celulares e seus "multi-usos"e fetiches,além dos orkuts da vida,..
Se não fosse a tal prepotência da geração de 68 os negros,as mulheres...teriam de fato conquistado algo?
Por outra,esses jovens de hoje teriam ganho uma informalidade que infelizmente acabou sendo assimilada mercadológicamente a ponto de sugar-lhes forças,sentidos,cérebros,almas...?
De qualquer forma,aquela arrogância lia um pouco mais,não tinha esoterismo barato,bruxarias derivadas ou auto-ajuda como referência máxima de leitura;buscava algum tipo de enriquecimento de espírito,para o "bem" ou para o "mal".
Muitos são os erros,claro.Mas a Heloísa esqueceu de dizer que a geração dos 2000 é ainda mais arrogante.Embora quase sempre fundamentada no Nada,na anestesia do excesso de "informações" e sensações pré-fabricadas,sem "causas" ou sensibilidade.Ainda mais umbigada e com o sentimento,melhor, a adrenalina de uma poser liberdade.Ou seja,falsa.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Gênio oculto







Diretor tão bom ( tão genial, eu diria) quanto Howard Hawks ou John Ford, King Vidor é o menos lembrado desses.Decidiram por lançar seu O Pão Nosso no Brasil e não foi a Continental(Maravilha!).
Como já havia ocorrido com Aleluia,que fora o primeiro filme da história feito somente com atores negros,Vidor apostou em um projeto totalmente desacreditado.Na verdade, aqui ele chegou a hipotecar a própria casa para poder rodar essa obra feita em período de grande crise:a Depressão norte-americana.
Os estúdios que se preocupavam com as lindas roupas dos atores certamente não queriam embarcar em algo do tipo. Como se tratava desse período difícil da história norte-americana,Vidor considerou que seria mesmo uma prostituição filmar de maneira tão esquiva. Preferiu apostar em algo sobre as possibilidades de um povo vencer em meio às agruras. Que é onde entrava o espírito de cooperação entre os homens de uma comunidade em uma espécie de socialismo primitivo.
Se o diretor em O Pão Nosso optou por filmar essas camadas populares em feroz luta de vida e sobrevida, qual seria a diferença, por exemplo, para um filme de John Ford,especialista em filmar uma América de homens anônimos,mas na verdade responsáveis pela construção em surdina de um país?
Um ponto capital é que, em Vidor, não encontramos rastros de sentimentalidade. Sua emoção brota sempre do mais “bruto”. Por outra, o diretor não perde tempo com nada como forma de fazer seu filme avançar.Sempre direto no ponto,com cortes por vezes mais rápidos,deixando as conclusões de cada cena para o espectador.Assim como Rivette dizia de Rossellini:”não enfatiza”.Contudo,com uma precisão total em cada tomada ou passagem.
Em uma cena do trabalho árduo dos personagens,esforço que seria responsável por devolver a água para aquela comunidade que estaria morrendo,um dos personagens enquanto capina diz algo como:”é assim mesmo,não pense que estamos em um estúdio”.Ou seja, uma cutucada de Vidor ,que foi o grande antecipador de Rossellini nessa recusa das “verdades”formadas nos seios das grandes companhias.Mas,principalmente, por essa disposição de filmar quase infinitamente um esforço de trabalho de homens,que é de onde extrai uma espécie de nova poesia para Hollywood: uma poesia bruta,enraizada na terra e na vida,como aquela dimensão telúrica e de pó do filme Viagem à Itália,de Rosselllini que, diante do enfrentamento com as crostas opacas do espaço/tempo,geraria uma reorganização geológica, material no cosmos do filme.Em ambos os casos,um (re) encontro epifânico entre corpos-almas,enquanto Vidor enfatiza a àgua como o lugar da drenagem da terra e dessas almas.
Um ponto substancial da obra encontra-se nas passagens do triângulo amoroso.O protagonista é casado,mas diante das adversidades por que passava a comunidade,sente-se derrotado.Como era o líder,o restante que lá residia dele esperava alguma atitude. O filme vai sugerindo com nenhuma palavra e muito dom de sutileza seu paulatino desinteresse por aquilo tudo que ele mesmo um dia havia erguido,seu sentimento de impotência.Reside na comunidade uma outra garota e não faltará muito para nos depararmos com uma espécie de novo Aurora,de Murnau.Só que, sem quase palavra alguma ou mesmo acompanharmos qualquer cena de abraço ou beijo entre o novo casal.Sabemos,no entanto, de tudo que está se passando:o sentimento de fracasso total do homem,sua fuga/atração para um outra vida,o desespero de sua esposa...Tudo exposto quase invisivelmente,pois Vidor aposta ao máximo no extracampo e na sugestão, sem se preocupar em “revelar” ou explicar algo.É a genialidade da expressividade em surdina e de seu poder de documentação,íntegro e de total respeito pela sensibilidade do espectador.
Essa bruta poesia nos convida a uma expressividade reinventada,mais espiritualidade que poetização,o que o aproximaria, por esse lado, mais do cinema de um Howard Hawks do que de um John Ford. Mas em todos esses casos,estamos diante de “modestos” épicos do erguimento ou reerquimento de uma nação, de seu espírito desbravador, aos quais King Vidor empresta toda sua gama de incontornável generosidade, sua considerável e íntegra imparcialidade de expressão e seu imenso gênio visionário em antecipar com toda gana uma parcela mais que determinante do (mais que) dito cinema moderno, o chamado neo-realismo italiano.Mais que um gênio das ocultezas,um diretor ainda um tanto quanto oculto.

sábado, 14 de novembro de 2009

Poeminha marginal


O frio abastece a noite e a manhã nasce,
a despeito do sol
Cenário mineiro circunspecto,
tolhido por muitos que são e serão

O comportamento da tarde não lembra a noite
com seus faróis:
A menina que se foi, a despedida, bem-vinda a noite
para aquecer você nua

Engavetei os papéis e rasguei a gaveta
Chorei pela roupa nova e experimentei a antiga

Não couberam sons e tecidos no teto


Alessandro Coimbra

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Universidade voltou atrás no caso da "menina endiabrada'.
Ou seja,o protesto via internet serviu pra alguma coisa.As micro-mudanças ocorrem assim hoje.A Net,enfim,tem seu papel.
A sociedade convive com uma anomia junto ao mercado de prazeres.(Controlados,já que se trata de mercado).Marcuse já havia feito o diagnóstico da "revolução sexual" ao dizer que a permissividade teria se tornado a nova moeda de controle.E isso tem tempo.Ou seja,o jogo de repressão havia se invertido.As formas de controle são mais sutis.A ênfase na genitalização comprometeria a dimensão mais ampla da sexualidade como lugar de criação,etc e tal.
De outro lado,existe a campanha higienista do corpo,do tipo:malhe,malhe,não pare,se alimente assim,assado,desidrate,se tornando um símile de tecnologia clean.
E tudo isso se somando aos ranços( pouco admitidos)da culpa Ibérica, católica.
O resultado só poderia dar nessa esquizofrenia agônica(e autofágica)que vimos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Caetanices "pós-mudernas"




Disseram-me via fone que o Caetano havia dito que Lula é "analfabeto,ignorante", qualquer coisa(s) do tipo.E,o pior, que isso teria gerado uma enorme polêmica(pra variar,tratando-se de quem falou).
Preferi conferir a veracidade disso tudo,até que vi no blog do Inácio Araújo,crítico da Folha, uma espécie de confirmação.
Não vem ao caso aqui se Lula é ou não ignorante,analfabeto(o primeiro, em grande medida,somos todos nós).
As "novas gerações",digamos,têm razão em ter nojo de Caetano.Devem se perguntar por que razão seus pais,tão "cultos",ficam babando ovo nesse cara do "século passado" e,que além do mais,vomita tantos clichês por aí com tanta gana,a Deus dará,como alguém super-protegido por uma "posição" deslocada,se alimentando narcisicamente disso tudo,já que "somente" arte seria pouco,muito pouco para ele.
Eu,que sou um desses velhos(pero no mucho),posso dizer que Caetano,caros jovens,tem seu lugar na música brasileira sim.E julgar toda uma obra por uma música ou outra é leviano.Assim como julgar toda sua produção pelas bobagens que profere.
Agora,mais leviano é um cara como ele nunca se cansar de suas tarefas retroalimentares,disparando suas frases de efeito sem fim(não são observações)sobre todos os assuntos.Aderindo,com gosto e gozo,a essa capa(de cepa babosa)com que a imprensa inócua(igualmente retroalimentar)o cobre(recolhendo suas próprias babas milenares nos copinhos),como um herói da "inteligência" dos trópicos:o "Baiano Rei".
"Admirado" inclusive pelas novas patotas baianas que se sentem bem em proferir que "o amam" tanto,apesar de mal conhecerem sua obra.Como sinal de "respeitabilidade" para um analfabetismo(funcional ou não)que reina.
Será que essa imprensa nunca irá aprender que Caetano não é porta voz intelectual de porcaria alguma e que deveria se restringir a falar de música popular,ou de histórias da carochinha e de seu doce predileto?(Prefiro-o na Caras,é mais coerente).
Talvez se fossem perguntá-lo sobre música,o mesmo teria orgasmos a dizer." Que nada,o Axé é tudo!É lindo! Aliás,não posso falar mal de algo que eu mesmo criei. Guardadas as devidas proporções,claro.Já que eu sou culto e a nova turma,não.Poderia até ter falado tão mal do Lula antes,mas como meu amigo é que era o ministro,deixei esses holofotes pra depois,enquanto me distraia com outras picuinhas que me fazem gozar.E,em meio às cacas que os críticos escrevem sobre mim,eu,Deus Baiano pairando acima das críticas,do Bem, do Mal e do Tempo,contemplo tudo com o sentimento de "êxito interior",do fundo de meu banheiro lindo,seus pobretões.Pois lugar de narcisistas-anais é no banheiro,contemplando a própria imagem,de preferência multiplicada por mil.Esse é o barroco brasileiro que tanto profetizo,seus ressentidos de araque.Crítico é tudo pobre.Resplandeço solar a cada vez que falam bem ou mal de mim.Afinal,esse é meu destino histórico.E,quiçá,desse lindo Brasil dos "cadernos culturais"."

sábado, 7 de novembro de 2009

Notinha

Depois de uns 1000 anos(cada semana desses dias é o equivalente a uns 50 anos,menos em experiências que em corrida temporal), decidiram por lançar filmes de Cassavetes(diretor independente norte-americano)em dvd na Terra Brazilis.
Pena que a segunda notícia não é das melhores:Cinemax é Continental,o que significa que se trata da distribuidora mais picareta do país(pensei que com o Rio Sagrado,de Jean Renoir havia ocorrido uma redenção.Mas o lançamento residual de O Homem do Oeste,de Mann, provou o contrário.Com todas as forças).
Poderíamos pensar em boas intenções.Mas com o preço que eles cobram, só para cinéfilos Kamikazes ou yuppies pós-modernos consumistas,disfarçados de cult-mans.(Redundãncia,já que cult-man já é,por si só,um simulacro de mão cheia).
Como diz a lenda jargão,de boas intenções o inferno já está cheio.Amém!

Ps.O excepcional Homem das Novidades,com Buster Keaton é outro dos queimados agora pela distribuidora.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009



Nesses tempos em que até Deus é contabilizado no tempo-dinheiro(vamos falar rasgado.Não há palavras bonitas para essas coisas,muito menos técnicas ou "teórias"):Um Deus da "Prosperidade" em detrimento de um Deus de misericórdia,compaixão e por que não,"justiça".
Depois do "Amor" já ter atravessado os jogos publicitários e com isso se cansado nas esquinas,a bola da vez se divide em ramificações aparentemente opostas:A mercantilização do sexo,do "desejo" obrigatório,de um lado e,quem diria,Deus(de outro).
Claro que há fiéis e fiéis,há igrejas e igrejas e não dá pra simplesmente jogar tudo numa mesma vala comum.
Claro também que o capitalismo desses tempos procura se reciclar(literalmente), sugando o máximo de quem não tem,por novas vias.
Se tudo isso é óbvio ululante pra quem tem o mínimo de cérebro e de vez em quando ainda queima alguns neurônios no país do "pra que pensar"?Ou "pra que questionar?".Não custa repetir("nada é tão óbvio que não precise ser esclarecido",me parece que Paulo Freire).
Isso tudo vale também para os ambientes universitários onde se repetem os dogmas dos teóricos da vez,como deuses não perecíveis...
Fica aqui esse poema do Cummings pra quebrar o gelo e lembrar o tanto que essas compartimentações,classificações são pobres.E também que Deus não se resume a números de contabilidade de uma lógica Globalizante,não se prestando a tantas padronizações.


"Obrigado Meu Deus por mais este espantoso
dia:pelos saltitantes e vrentes espíritos das árvores
e um azul autêntico sonho celeste; e por tudo
o que é natural o que é infinito o que é sim

(eu que morri estou hoje vivo de novo,
e este é o dia de anos do sol;este é de anos
o dia da vida e do amor e asa:do alegre
grande evento ilimitavelmente terra)

como poderia saboreando tocando ouvindo vendo
respirando qualquer - erguido do não
de todo o nada - ser simplesmente humano
duvidar inimaginável de Ti?

(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)"

[e.e. cummings; tradução de Jorge Fazenda Lourenço]

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Corpo que goza versus o Corpo que sublima(A Mulher e o Homem,o macho)



Levada Da breca,de Howard Hawks:O homem e a mulher em confronto?Ou o instinto de Vida(Eros)versus o Instinto de Morte?
Nessa screwball(comédia maluca)trepidante,o diretor decidiu por acentuar ainda mais sua ironia,presente inclusive nos filmes de aventura,faroestes,etc.
Nos filmes "de ação" os homens estão sempre envoltos em seus árduos trabalhos, por meio dos quais seus limites são transpostos com considerável sucesso(como de um winner norte-americano).São homens objetivos,pragmáticos em suas tarefas,realizadas com grande beleza nos gestos e primor tal qual dos feitos gregos épicos.No entanto,um elemento mais moderno se anuncia com força:o mais difícil dos limites será sempre uma mulher,que embaralhará um bocado os papéis dos sexos.
Que é onde entra a brecha dos heróis:seres tão abismados em suas tarefas, tão intrépidos,deixam vir à tona seu medo de perder "a si" em uma relação mais concreta.Ou seja,o medo da morte.
O homem nessa comédia é um cientista.Ou seja,aquele que sublima os medos por meio da ciência(assim como o protagonista de O Inventor da Mocidade).Existem,claro,várias formas dessa necessidade de sublimação nos demais filmes.Tanto mais em uma cultura maquínica,de grandes "previsões",como a norte-americana.
Nessas comédias a ironia muita das vezes se acentua,chegando ao ponto de, em Levada da Breca,o homem-cientista sisudo-se travestir de mulher frente a uma necessidade.E falta de opção.(É o que ocorrerá também em A Noiva era ele).
Portanto,na comédia da foto temos a mulher como o corpo que goza(ou seja,sem as estratégias habituais para burlar o medo da morte)versus o homem do corpo que sublima.Que sublima,seja por meio de suas obsessivas pesquisas e leituras,seja por meio de seu trabalho.E, sobretudo,estando prestes a se casar com uma "típica" castradora(mulher de gelo,igualmente maquínica e contempladora científica).
Ao se passar por travesti,torna-se incorporada toda a estratégia desse "temor da castração",(leia-se temor da morte)próprio a um homem já castrado e oprimido pela futura esposa(A figura do travestimento estará presente também no John Wayne,de Rio Bravo).
É então que entra Katharine Hepburn,que tenta devolver vida ao corpo desse homem.
Há toda uma série de elementos enriquecedores,tais como a busca de um leopardo que precisam a todo custo capturar,como esse corpo perdido e radicalmente cindido na castração.E,claro,o dinossauro de mentira- "compensação fálica do cientista"-que se quebrará ao final,assinalando um momento de morte em vida,de ruptura.Inclusive como humor de Hawks a apontar a fantasia da "perda de si" masculina.
Talvez e, por fim,seja essa quebra um momento da inclusão da morte como dado " a mais" da vida.
Que é onde voltamos ao início do comentário: Morte como outra força impulsionadora da vida ao lado de Eros,o impulso erótico de Katharine Kepburn.Quem sabe um dia não mais como confronto.Não mais como cíclica sublimação das fantasias de castração masculinas.
Mas isso, claro,não caberá ao filme resolver.

terça-feira, 20 de outubro de 2009



Texto perdido não dá pra ser reescrito.Em linhas mais gerais, o que poderia ser dito da revisão de Noivo Neurótico,Noiva Nervosa(Annie Hall),de Woody Allen?Que, ao longo do tempo,ele não perdeu nada de sua força.É o trabalho em que Allen parece mais se encontrar à vontade em matéria de humor.O que acompanhamos é sim um torpedo de achados de grande perspicácia,acompanhados por um senso de cinema o mais solto e livre possíveis.Exemplo:cortes no tempo em que podemos acompanhar o pretérito, juntamente ao pretérito passado, somados ao presente do protagonista,tudo como se em um único fluxo, o que não quer dizer frenesi,em absoluto.
Em alguns momentos a cinefilia filtrada do diretor parece estar mais para o Fellini de Amarcord( a cena na escola em sua infância),mas o que prevalece é uma espécie de sopro de nouvelle-vague francesa,tanto pelas quebras,deslocamentos constantes,como por esse gosto pela captação mais aberta:seja como entrega ao mais casual do cotidiano,ou por esse dom de flagrar inequivocadamente(em seu caso,com certa calma e sobriedade)a energia dos espaços exteriores-mais abertos.
A história de amor entre um neurótico e uma histérica pode remeter a uma nova depuração de Levada da Breca,de Hawks, só que com inversão de papéis.Aqui a histérica é a mulher, e o homem, o obsessivo, encampados em uma ambientação no máximo do urbano,constituinte daquela civilidade fortemente cindida que tanto agrada ao artista.Só que em pouquíssimos filmes se poderia(como se dá aqui)haver quebras da narratividade para uma abordagem direta do espectador pelo próprio protagonista-diretor,sem que isso em nada prejudique o timing do momento.
Annie Hall tinha tudo para ser um filme carregadamente pessimista, tendo em vista certas notações do diretor-protagonista ao longo da projeção,ou por se tratar de uma história de amor frustrado.Sem atraiçoar o que isso implica de densidade,o que Allen faz é injetar o filme de tanta descontração cinematográfica com gags incessantes-as verbais afiadíssimas,dignas de um Groucho Marx em seus melhores momentos-,que a obra, na maioria das vezes,não teve como não fluir tão desenvolta e deslizantemente.O que acompanhamos é uma reorganização dessa experiência amorosa,entre a chave mais irônica e a mais afetiva(Fellini de novo),por onde se possa,de alguma maneira,celebrar o instante mais vivido(certa nouvelle-vague francesa, novamente).
Porém, Noivo Neurótico,Noiva Nervosa não deixa de ser não “somente” uma homenagem às experiências de vida,mas também um canto à figura de Annie,Diane Keaton.Quando ela canta,o filme pára e se concentra um tanto mais.Quando ele termina, é a voz da atriz que acompanhamos em off para as imagens revividas e redivivas.A se considerar que o diretor e a atriz tiveram de fato um romance em vida,mas já concluído quando da realização da obra, trata-se mesmo de uma das mais belas reorganizações de experiências do cinema,como também uma das obras mais definitivamente agridoces(melancólicamente enfezada e terna),que já passaram pelas telas(grandes ou pequenas)..Mas tudo isso consiste nessa inteligência arguta com raro sentido do tempo,que pôde lançar fora todo o bolor, a partir de uma experiência extrema de perda e fracasso.