segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mineirices- 2






" Paixão Medida"


Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.

Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.

Gemido trilongo entre breves murmúrios.

E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia.

(Drummond)

Mineirices







" Homens e mulheres sonham com um jardim. É preciso escolher um jardineiro.

Em tempos idos, bárbaros, os mais fortes, com porretes nas mãos, decidiam sobre a forma do jardim. Quem não concordava recebia uma porretada.

Aí chegou a democracia, coisa que eu amo e quero. Não é preciso brigar pela forma do jardim. A gente escolhe o jardineiro de acordo com o gosto e interesse.

Mas, como na prática a teoria é outra....Os indivíduos não são nem livres nem "racionais". São tolos. Moram em covas como toupeiras. Não vêem jardim. Só pensam na sua cova e por ela fazem qualquer negócio.

Trocam um jardim para todos por um apartamente para si. Querem um pedaço de terra cercado de muros no meio de uma montanha de lixo.

O que querem é uma canoa, não importando que, junto com ela, venha o dilúvio. Para se entender política é preciso ler menos os politicólogos e mais Orwell, Maquiavel, Freud.


Hoje os porretes da ditadura foram substituídos por artifícios de sedução. A fala macia da serpente é mais eficaz.

Na ditadura o estupro é óbvio. A ditadura gera o desejo de vingança. Na "democracia" o cidadão permite o estupro, é cúmplice do estupro, na esperança do gozo.

Felizmente, existe a dona Maria, minha faxineira, que fez almoço para as crianças de seu bairro. Acredito em seu gesto. E como ela, há milhares de donas Marias e senhores Joãos ( de outra crônica) por esse Brasil afora, pessoas anônimas que nunca se candidatarão e que, se candidatassem, não se elegeriam. Faltam-lhe as condições mínimas para triunfar no jogo: não têm esperteza nem dinheiro..."
( Ra)


Ps- Foto de "Fort Apache", de John Ford.
Ps 2 - O poema F- abaixo- é de Carlos Drummond.

sábado, 6 de agosto de 2011

F




Forma
forma
forma

que se esquiva
por isso mesmo viva
no morto que a procura

a cor não pousa
nem a densidade habita
nessa que antes de ser

deixou de ser
não será
mas é


forma
festa
fonte
flama
filme


E não encontrar-te é nenhum desgosto
pois abarrotas o largo armazém do factível
onde a realidade é maior do que a realidade

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Errata

Favor desculpar o erro de digitação: aviltado.

Obrigado!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

De quem é o preconceito?- 2





Preconceito existe na mesma medida em que o mesmo não é admitido como traço cultural. Logo, o preconceito é sempre do outro- o que não deixa de ser uma atitude discriminatória.

Pode-se ter preconceito pelos mais variados motivos. Como no caso do ciúme: basta que alguém exista.

A partir do momento em que alguém é minoria frente a um "grupo", a panelinha já o discriminou.

De quem é o Preconceito?




Não entendo muito bem por que ditos “progressistas” realizam passeatas pela descriminalização da maconha, influenciados logo pelo príncipe neoliberal FHC, que, aliás, nunca foi oposição e que, por não saber muito bem como sê-lo tenta inventar algo para si no vácuo.

Mas a questão não é a descriminalização da maconha.

E, sim, o fato de supostos “progressistas” não se mobilizarem quando pessoas estão estão sendo removidas arbitrariamente do anel rodoviário em BH, por exemplo, em função da côrte montada para o espetáculo de Copas e Olimpíadas.

Para tanto, não há campanhas- o que não deixa de ser estranho.

Não há marchas quando nosso SUS vive em eterna relação contínua/contígua de promiscuidade com os planos de saúde o que, por sua vez, mina qualquer dignidade mínima para a Terra Brazilis.


Enquanto a educação é quase jogada às traças, assim como quem carece de saúde é, no mínimo, aviltado : "bichas, padres, negros e mulheres fazem o carnaval", como diz a música do Caetano...Mas tudo é muito mais".

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Em sala: TV- Debates/parte 1




"Quatro jovens mulheres sentadas em roda conversando de sexo no programa "Papo Calcinha".

Mas apesar do visível esforço de modernidade, nada foi dito na horizontal ou em pé que não estivesse sendo praticado desde antes do paleolítico. Era um pornopapo perfeitamente aceitável em salas de visitas, o privado exposto em público.

Ainda assim, tenho sérias dúvidas a respeito. Ouvindo a conversa, em nenhum momento me senti presenciando algo pessoal, e muito menos íntimo. Tudo parecia uma representação. O íntimo ali era muito mais obra de produção do que de " realidades".


A jovem sacode a cabeleira escovada/alisada/pintada/cacheada, arfa por baixo da roupa propositadamente reveladora do seio que talvez seja de silicone, descreve seus encontros ardentes com moças ou rapazes. E eu não tenho por que acreditar que aquilo corresponda à realidade, que retrate, de fato, seu comportamento sexual.

Não é difícil saber o que dizer para modernizar a "conversa erótica". A publicidade, as revistas, os livros de autoajuda sexual nos bombardeiam diariamente com seu repertório. Qualquer adolescente ou pré-adolescente sabe, antes mesmo de lançar-se à prática, como deve agir um mestre.

No entanto, qualquer sexólogo sério ou qualquer pesquisa confiável nos dizem da miséria sexual, do desencontro erótico, do sentimento de insuficiência que assolam as vidas e camas da humanidade.

As conversas sobre sexo, e não apenas sobre sexo, mas também sobre qualquer tipo de transgressão, tomaram como modelo as conversas de pescadores. O peixe da narrativa costuma ser bem maior do que a sardinha pescada. Porém, nesses casos não se trata de mentira, mas de defesa.

Pois enquanto aparentamos relatar nossa mais absoluta intimidade, utilizamos esse relato como escudo ou biombo por meio do qual se enconde o núcleo mais delicado- que pulsa na escuridão. Aquele que sendo, de fato, íntimo, só a nós pertence."

( Marina Colasanti)