quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Uma Lista essencial




Um tanto dentro de certa escrita automática do momento, pinço Uma Lista de Filmes Maiorais:

Europa 51( Roberto Rossellini)
Hatari!( Howard Hawks)
Casamento ou Luxo( Chaplin)
O Amigo da minha amiga(Eric Rohmer)
Deus sabe quanto amei(Vincente Minnelli)
Fort Apache( John Ford)
A Última Gargalhada( Murnau)
It´s always fair weather, ou Dançando nas nuvens(Kelly-Donen)
Violência e Paixão(Visconti)
O Amargo Triunfo( Nicholas Ray)
A Marca da Maldade( Orson Welles)
Se meu apartamento falasse( Billy Wilder)
O Alucinado( Buñuel)
Janela Indiscreta( Hitchcock)
Viver a Vida(Godard)
Um Condenado à morte escapou( Robert Bresson)
Um Mundo Perfeito(Clint Eastwood)
Ordet(Carl Dreyer)
O Bagunceiro Arrumadinho( Frank Tashlin)
Carruagem de Ouro(Jean Renoir)
O Beijo Amargo( Samuel Fuller)
Holiday( George Cukor)
O Rei da Comédia(Scorsese)
Manhattan( Woody Allen)
Ruby Gentry( King Vidor)
O Eclipse( Antonioni)
A Grande Cidade( Satiajit Ray)
O Intendente Sancho(Henri Mizoguchi)
Woman under the influence( Cassavetes)
Marcas da Violência(David Cronenbergue)
Mary(Abel Ferrara)
....

Outros: O Homem que matou o facínora( John Ford)
O Pirata( Vincente Minnelli)
Meu Tio( Jacques Tati)
Andrei Rublev( Tarkovski)
Splendor in the Grass( Kazan)
Only angels have wings( Hawks)
Oito e meio (Fellini)
Amor na tarde( Billy Wilder)
Amor à tarde(Rohmer)
Sangue sobre a neve(Nicholas Ray)
O Homem com a câmera (Vertov)
Morangos Silvestres(Bergman)
Notorius(Hitchcock)
A Oitava Esposa do Barba Azul( Lubitsch)
O Fantasma Apaixonado( Joseph Mankievicz)
A Cadela( Jean Renoir)
...............................................a completar.....



Após ter postado seguidamente algo sobre Tom Waits, David Bowie e Joan Miró, me pergunto não tanto numa sede de "sentido", mas numa espécie de peripécie analógica, que eles não estariam por aqui tão arbitrariamente aproximados uns aos outros.
É que Waits cria nas beiradas das ruas em cima dos detritos da cultura e se esforça muito por ir colando caco por caco dos terremotos da decadência a fim de dar origem a um canto que, por vezes, beira o profético.
Enquanto David Bowie morre ao final de cada obra sua para dar origem a um novo Bowie da próxima, a partir das ruínas da civilização. O que gera um ímpeto de reorganização das coisas em estilo renovado, no momento mesmo em que abria caminho para outros artistas.Os terremotos da cultura são importantes para uma nova organização geológica da terra. São eles, afinal, que permitem a conversão de morte em vida.
Para não falar nos Talking Heads que trabalhavam a partir das ressacas das utopias dos anos 60 e, de tais detritos, uma obra reinjetada de ânimo se fazia possível, abrindo caminho também para tantos outros artistas.
Em Joan Miró, o pintor, um surrealismo distinto do de Salvador Dali se realizava. Dali ainda se preocupava com alegorias, com a significação do "por detrás das coisas", tornando o surrealismo também figurativo.
Em Miró as formas encarnam sua própria vida como realização moderna da vivificação dos detritos da imaginação, frente a um mundo mecânico e mecanicista. A partir dos detritos do imaginário, Miró oferece sua resistência ao olhar mecanizado, contaminado do mundo ( inclusive das imagens) disseminado como rotina( hoje não somente nos adultos, mas nos próprios adolescentes e mesmo nas crianças, desde cedo treinadas a uma inclusão cada vez mais veloz no universo da poluição visual, quase sempre nadificante).
Miró é a realização de Marcuse, do imaginário no poder "avant la-lettre". Embora um imaginário que não se leva a sério como Linguagem do Poder. Frente aos cacos da civilização, as aquarelas de Miró estão a rir disso tudo como "crianças" sábias a nos colocar de cabeça para baixo, ou como a reis que abruptamente se vêem nus.
É um pouco por isso que, sua obra, de tão lúdica se converte em algo tão grave a nossos olhos tão marejados.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Descobri que a vida é bailarina e que nenhum ponto anula o viravoltear das coisas"( Homenagem a Joan Miró, Vincente Minnelli, Jerry Lewis, Chaplin..)




O título" Descobri que a vida é bailarina..." estraído do poema-minuto de Drummond feito para uma tela de Miró.



Dos Becos para a Indústria, da Indústria para os becos( Tom Waits/Disco de cabeceira)




Falando em artistas dos anos 70, não dá pra deixar de fora o poeta das margens Tom Waits.

Parecia haver nesse período uma onda decadentista também. David Bowie e seu Ziggy Stardust, um momento máximo do glitter, vestia suas máscaras e ia, em sua peça musical, à praça pública em pleno reino do rock tornado modismo de massa( indústria altamente planejada e organizada) para ser exterminado. Não somente a antecipação do ídolo que ascende e morre como um meteoro que cai, terminando por ser devorado por seus fãs( ecos de Michael Jackson).

Sobretudo aquele que não teme se sujar em praça pública, no reino das massas, dando sua cara para bater. Cada disco de Bowie seria uma frustração da persona anterior, se configurando como jogo com a moda, com as personas do rock. Isso nos anos 70, pois nos anos 80 a lei camaleônica torna-se norma máxima do faro marketeiro( vide Madonna, Michael).

Enquanto que em Bowie era, sobretudo, inquietação estética pela busca de novos rumos em sua música, enquanto cada personagem criada para cada novo disco era uma frustração dos modismos do rock e do poder de assimilação que a indústria tem de tudo incorporar até sugar forças.

Até os anos 70 o jogo de Bowie funcionou, enquanto nos 80 ele foi produzindo cada vez menos, para depois renascer das cinzas nos anos 90. O disco Let´s dance carregava um certo espírito conservador se cotejado com o que ele havia feito antes( Scary Monsters, Lodger, Heroes, Low, Station to Station...), mas ainda apresentava algumas pérolas. E para quem já sempre esperava do artista algo um tanto "insólito", não deixou de ser o disco mais um dado dessa "lei camaleônica", ao abandonar o descentramento mais explícito para se localizar numa espécie de centro pouco esperado para o artista. O interessante é que a produção musical foi de Nile Rodgers, produtor da Madonna na época, que se não fosse Bowie um talento à parte, resvalaria de vez na obviedade das obviedades. O que em parte ocorreu enquanto ícone, imagem pop do período MTV.
Nos anos 90, Rodgers trabalharia novamente com Bowie num trabalho infinitamente mais arrojado, ou seja, mais conformado à gana mais inqueita do artista: a inquitação como método de criação. Só que dessa feita a concepção musical não foi deixada a cargo de Nile. Ele acompanhou toda a visão de Bowie, procurando segui-la à risca.
Black tie, White Noise era o artista renascendo das cinzas de vez, correndo o risco de ser exterminado mais uma vez em Praça Pública. Contudo, para que a dimensão mais, digamos, experimental não parecesse mera redundância adentrada numa espécie de "Nova Ordem Mundial"da música e das modas, o disco intercalava com perfeição toda a inquietação sonora do autor com melodias mais redondas, mantendo a qualidade ímpar em ambos os pólos.

Voltando a Tom Waits, o decadentismo aqui não era do Ziggy Stardust de Bowie, mas mais extremamente o da poesia das margens, embebido, sem maiores performances, das beiradas das ruas, como no genial Rain Dogs, arrojado e careta na mesma proporção.

Em Rain Dogs , há por Tom Waits uma recriação pop dos vários escaninhos do cânone popular: polca, tango, etc... aos quais Waits injeta sua "poesia das margens" com sua rouca voz para deixar um Lou Reed enrubescido. Há até o jazz e um bocado do folk à la Bruce Springteen(outro grande artista que comparecia naquela década, os anos 70) e mesmo Leonard Cohen.

O disco da foto é da lindíssima trilha que Waits compôs para o filme de Francis Ford Coppola, O Fundo do Coração. O filme acabou de sair em dvd e seria uma ótima ocasião para revê-lo e "passar a limpo" essa inserção em princípio corajosa do diretor no reino dos musicais. É sabido que Coppola quebrou sua produtora com essa "extravagância". E talvez as pessoas quisessem se limitar no período a ver musicais no estilo John Travolta, e não um ousado reavivamento do imaginário/lúdico de "outros tempos".

Sei que Tom Wats compõs aqui um jazz inesquecível dentro do estado de espírito proposto, bem acompanhado por uma Crystal Gale cantando que é uma maravilha, como moça-crooner de peso dos ano 70, além de linda. Se o filme na revisão estiver à altura da trilha, corre-se o risco de ser uma obra-prima redescoberta.


sábado, 1 de agosto de 2009

Na Guerra

Esse poema é um bocado aquele filme do Hawks, Jejum de Amor, mas é para mim a sensação de ter de digitar tão rapidamente as palavras e depois ver que está tudo errado. Tanto mais que são digitadas de lans e não no "conforto da casa". E já que sai muita coisa errada, já que o tempo não pára, que seja então, como dizia Oswald de Andrade, aquela contribuição milionárias dos erros. Ou seja, nessa época em que tudo é muito ágil, a guerra da escrita também deverá ser ágil, com os respingos ficando pelos cantos, nas margens, a provar que ali houve, em tempos assépticos de apresentação, um trabalho humano. Em doce blog.


Poema do Jornal

O fato ainda não acabou de acontecer
E já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia
O marido está matando a mulher
A mulher ensanguentada grita
Ladrões arrombam o cofre
A polícia dissolve o meeting
A pena escreve

Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.

O Bardo (Parte 2)










Abaixo um dos melhores poemas de um dos maiores poetas do século XX:
William B. Yeats, numa bela tradução e, certamente muito trabalhosa, de Augusto de Campos (Para muitos, inclusive T. S. Eliot, Yeats era o maior).





Rumo à cidade santa


William Butler Yeats


VIAJANDO PARA BIZÂNCIO



(Tradução: Augusto de Campos)




Aquela não é terra para velhos. Gente jovem, de braços dados, pássaros nas ramas — gerações de mortais — cantando alegremente, salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas, peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece as obras do intelecto que nunca envelhece. Um homem velho é apenas uma ninharia, trapos numa bengala à espera do final, a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria sobre os farrapos do seu hábito mortal; nem há escola de canto, ali, que não estude monumentos de sua própria magnitude.
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância, em busca da cidade santa de Bizâncio. Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado, como se num mosaico de ouro a resplender, vinde do fogo santo, em giro espiralado, e vos tornai mestres-cantores do meu ser.
Rompei meu coração, que a febre faz doente e, acorrentado a um mísero animal morrente, já não sabe o que é; arrancai-me da idade para o lavor sem fim da longa eternidade.
Livre da natureza não hei de assumir conformação de coisa alguma natural, mas a que o ourives grego soube urdir de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas, para acordar do ócio o sono imperial;
Ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas, pousado em ramo de ouro, como um pássa- ro, o que passou e passará e sempre passa.


William Butler Yeats


O Bardo Novamente!



Leo Cohen com a grata surpresa de um disco novo, e eu com meu Songs for love and hate, um dos discos mais densos já feitos, cheio de falhas. Que o "novo" venha renovar o "velho"!
O "velho", no caso, não é somente um dos mais densos, mas um dos melhores discos já feitos por um incontestável bardo . E sua imensa tristeza não impede os momentos de múltipas epifanias nesse jogo do " profano/sagrado", em que Cohen canta desencantos amorosos e também sua relação com Deus.

Entre a introspecção em seu estado mais rasgadamente denso e o "hino religioso" em seu estado mais visceralmente "litúrgico", as melhores letras e as melodias mais sinuosas e perfeitas se encontram.
Leonard Cohen, Joni Mitchell, Costello, Neil Young, McCartney, Steve Wonder, Marvin Gaye e outros mais... São a evidência de que os anos 70 foram os mais prolíficos em artistas solos dentro do "solo"convencionalmente chamado de pop. Haja gênio...