quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Virada







Presentes simbólicos para a virada de ano. Quem ama se deprimir, como gótico ou emo enrustido, fique à vontade, embora talvez essa lista não agrade, por não pretender ir pelo rótulo de "contramão".

The Party (Ou, O Convidado bem trapalhão), de Blake Edwards

A Roda da Fortuna, Vincente Minnelli

Cantando na Chuva, Stanley Donen e Gene Kelly

A Última gargalhada, Murnau

Meu Tio, Jacques Tati

Carruagem de Ouro, Jean Renoir

Holiday (ou O Boêmio Encantador), George Cukor

Um Dia em Nova York, Stanley Donen e Gene Kelly

O Esporte Favorito dos Homens, Howard Hawks

Soberba, Orson Welles

Intriga Internacional, Hitchcock

Viva Las Vegas, George Sidney

O Escorpião de Jade, Woody Allen

Se meu apartamento falasse, Billy Wilder

Aleluia, King Vidor

As Sete Mulheres, John Ford

Uma Mulher é uma Mulher, Godard

O Bagunceiro Arrumadinho, Frank Tashlin

A Fantástica Fábrica de Chocolates, Tim Burton

Ratatouille, Pixar/Disney

Luzes da Cidade, Charles Chaplin

Febre de Juventude, Robert Zemeckis

Você já foi à Bahia, estúdios Disney

The Cameraman, Com Buster Keaton

O Homem com a Câmera, Dziga Vertov

Sangue sobre a neve, Nicholas Ray

Shadows, John Cassavetes

Victor ou Victoria, Blake Edwards

Duas Garotas Românticas, Jacques Demy



a completar...

Notas



Obrigado pelo comentário abaixo, Garrel, pois que ontem à noite estive pensando algumas coisas quando saí com alguns amigos, e daria agora para puxar o gancho. Trangressão(ou não trangressão) é um dos termos da moda. Pior do que ele é "alternativo".

Fingimos ser chiques usando o marketing pessoal do "alternativo", embora não saibamos bem o que isso hoje seja, de fato, após a "alternativez" já ter se tornado mercado, com o cinismo a tomar conta. Perdemos o bonde da história com rótulos paridos nos 60. Há a esquerda festiva caduca, junto aos cinismo da direita festiva autoindulgente.

A palavra de desordem-ordem da tribo em questão é contestar. Não são, a rigor, de ação, mas de reação. Gostam de "provocar" enquanto nada produzem, a viver de esquizofrenia e autismo.

Ontem saí com uma turma de psicólogos existencialistas que me disseram que a bissexualidade seria uma boa, embora não vivam a mesma no dia-a-dia. Consideram que dizer isso, por si mesmo, possa significar contra-cultura.

Quando a "cultura" ainda não foi assimilada no país, falar em contracultura soa engraçado- logo hoje, em que o mercado é feito para todas as predileções. Como bacana é o cara que se considera da trupe "sexo, drogas e rock and roll", mas não pega ninguém, não fuma maconha, e nem tampouco exibe seus dotes musicais rockeiros. Chegando a idade, começa a carregar o ranço dos instintos não satisfeitos na adolescência.

Falei aos amigos psicólogos: até estudei piscologia, mas naquela época "não havia pego" nenhuma mulher e em uma cultura rigidamente patriarcal acabei partindo, de vez, para as tentativas de conquista. Enfim, quando consegui pegar a primeira, a bissexualidade já havia se tornado moda, de forma que perdera a graça ser parte integrante da "contracultura" sem cultura, ou da sexualidade sem vivência.

Ah, desculpem a digressão: Lembrei do Lobão por esses dias. O cara que foi porta voz de primeira na luta pelo barateamento dos cds em um embate, de início, ingrato contra as grandes gravadoras. Muitos, claro, protestaram. As corporações não abaixaram a bola dos preços, e hoje sabemos que, com ou sem Lobão, perderam a guerra para a pirataria. Digo isso, pois considero Lobão um bom político, melhor do que artista. Ele que adora criticar bossa-nova e cia.

Nesse ponto, é como o "alternativo" de hoje e seus marketing. Só reage, pois sua obra não suportaria a comparação com a dos músicos que ama execrar, o que já virou hobbie de quem sente muito tédio e despeito. Lobão, ao contrário de muitos, talvez não sofra de recalque sexual. Bossa-nova continha muita chatice, mas o que havia de bom deixou um enorme legado estético, não somente pelas obras dos criadores envolvidos, quanto pelos grupos que posteriormente surgiriam, inclusive os ligados ao rock. Ou seja, estética e política, no caso do discurso de Lobão, não combinam. Lobão guarda recalque do sucesso, junto ao primor estético que nunca atingiu em suas músicas.

No começo do novo milênio, Suba apostou na modernização de nossa música, reutilizando a bossa-nova, o que não se daria somente no Brasil, pois há outros exemplos.


A última "digestão",se me permitem- digressão: Passei hoje os olhos pela lista da Rolling Stone sobre as melhores músicas do pop. Dos Beatles, por exemplo, entre "coisas boas" há obviedades mais tolas como Can´t buy me love ou Ticket to Ride.

Precisavam ter "caprichado" tanto nesse lado A? Pois que You never give me your money, She´s leaving home, Sexy Sadie, entre tantas outras, nem pensar? O pop é a cultura que mais desperta mistificação, pois os caras que escrevem a respeito parecem só ouvir o "gênero" a vida toda. Já merece estudo, para publicações melhores.

Concordo também que a MPB tenha se tornado uma espécie de instituição quase intolerável. Contudo, só saber separar as coisas, ouvir mais músicas. Viver e estudar um pouco mais.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Presentes do Saco













Mesmo sem crer em Papai Noel, retiro do saco a lista de presentes fílmicos natalinos:

O Pirata, de Vincente Minnelli

Bonequinha de Luxo, Blake Edwards

O Raio Verde, Eric Rohmer

Aurora, F.W. Murnau

Janela Indiscreta, Alfred Hitchcock

Hatari!, Howard Hawks

A Loja da Esquina, Ernst Lubitsch

O Pão Nosso, King Vidor

Casamento ou Luxo, Charles Chaplin

Gosto de Cereja, Abbas Kiarostami

Tudo o que o céu permite, Douglas Sirk

Dançando nas nuvens, Stanley Donen e Gene Kelly

O Otário, Jerry Lewis

Meet Me in St. Louis, Vincente Minnelli

Edward mãos de tesoura, Tim Burton

Um Mundo Perfeito, Clint Eastwood

A Grande Cidade, Satiajit Ray

Ordet( ou, A Palavra), Carl Dreyer

Encontros e Desencontros, Sofia Coppola

O Messias, Roberto Rossellini

Pickpocket, Robert Bresson

As Vinhas da Ira, John Ford

Menino do Engenho, Walter Lima Jr.

São Paulo SA, Luís Sérgio Person

Elogio ao Amor, Jean-Luc Godard

A Grande Ilusão- Jean Renoir

Errado para cachorro- Frank Tashlin (com Jerry Lewis)

(fotos, de cima para baixo: Edward mãos de tesoura, Elogio ao Amor, O Pão Nosso, Casamento ou Luxo, O Raio Verde, Meet in St. Louis( no Brasil, Agora seremos felizes) e O Otário.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Escolhas e Controle








"E então é Natal, e o que você fez?

Aumentei desproporcionalmente meu salário- claro- como naquela música do Ira: "eu quero sempre mais de ti". Assim deu pra comprar mais presentes para toda a família e minhas amantes. Lembram-se de "Se meu apartamento falasse", de Billy Wilder?

E quem sabe agora dar continuidade ao financiamento de novos tráficos, ao abaixar essa poeira toda, após termos (re)garantido o status do exército e cia, enquanto nenhum documento sobre os crimes da ditadura foi, ou é aberto no país. O Brasil oferece um tipo único de privacidade: o da democracia sem transparência.

Jogamos novamente um gelo na população, em nome da "segurança nacional" direcionada ao Rio de Janeiro, a oferecer nosso circo turístico de Copa e Olimpíadas ao restante do planeta. Investimos em publicidades solidárias, com seus shows globais, habituais, nos preparando, mais uma vez, para formar nossos melhores consumidores: as crianças! A rigor, nós é que as consumimos no bombardeio de imagens: Mônicas a anunciar seus produtos com a velha face da inocência.

E se por acaso alguém exigir uma legislação mais criteriosa para tanto, relembraremos que, com isso, estaríamos voltando à ditadura, não é mesmo? Mesmo que a maioria dos países da Europa já tenham adotado tais critérios, sem serem acusados, por isso, de ditadores. Mas para quê, já que temos tantas escapadelas em nossas mágicas mangas?

Começamos com o "céu" da imagem inocente de personagens infantis, desde que Xuxa rachou o mundo lúdico nacional em dois tempos, inaugurando a Era das Paquitas. Daí para Tchans e Axés, e a nova imagem da "mulher liberada" enquanto objeto de mercado, até "Malhação"- a subnovela que criamos para lançar nossas modas instantâneas. E claro está que, quem não entra na festa, estará de fora da "turma da Mônica adolescente".

Crianças e jovens devem se sentir "livres", ok? Livres para comprar à beça e- com muita angústia junto à bastante adrenalina compensatória- poder passar nos vestibulares da vida. Não sem antes passar pela escola mais adestrante, apadrinhada a dedo por pais e amigos.

Adolescentes precisam sentir essa "liberdade" a fim de afirmarem que, com míseros 14 anos, não são virgens, uma vez que, se disserem o contrário, poderão entrar na lista negra de linchamento, propiciada pelas amigas "mais avançadas" da escola. Daquelas que já participam do jogo de mercado do sexo programado. A internet, nossos banners e revistas muito ajudam com suas receitas de bolo, em que a imaginação já chega pronta em rápida e empetecada deglutição- ao menos virtualmente falando. Mas sexo é fantasia,pô! Nós só tiramos um pouco do trabalho deles em poder imaginar "per si", uma vez que nosso estoque industrial é tremendo, ilimitado e apenas mais explícito.

Para o tráfico, preparamos uma bela ofensiva contra os mais visados traficantes, uma vez que damos nossas Caras na revista de mesmo nome quando há convite. Nossas bundas, no entanto, permanecem em zonas privadíssimas. Quem sabe, assim, esqueçam esse negócio de remexer em torturas e mortes de "milênios atrás". Pra que revirar em público as nádegas de um país, por vias menos vistosas?

Pra que acompanhar países mais desenvolvidos, se lucramos tanto sendo assim, como diz outra música do Ira: " me vendem essa droga, nos proibem essa droga"? Aos "mais fracos": o mais atrasado. Mas não sem antes sofisticarmos nosso arsenal tecnológico de armas e contactos. Isso é que é uma supraorganização!

Roubamos até algumas ideias de republicamos que, em nome de um Bem maior e da democracia estabeleceram a relação prolífica entre provincianismo e altos requintes em festas privadas- como no filme "De Olhos Bem fechados", o último de Stanley Kubrick, que esteve por lá antes de morrer a registrar a relação entre Eros e Tanatos(pulsão de morte), poder e seitas, máscara e ocultismo: "Sociedade Secreta". Você, meu caro, só entra se convidado for, se pertencente à família x ou y, Real! Lembram-se quando Bush, Nixon e tanta gente "religiosa" se encontra, de quando em vez, em um campo para um belo de um descanso?

Somos escolhidos a dedo por nossos intocáveis deuses. Assim, constituímos uma multinacional na translação de uma nova era, superando em pontos e números a demagogia da Igreja Universal. Pois fingimos combater aquilo que mais amamos, financiando nossas indústrias, ao mesmo tempo em que compramos alguns policiais e políticos. Empurrando uma massa em completa anomia para substâncias, crimes, na mesma medida em que os combatemos, numa super organizada estratégia "esquizofrênica" direcionada para mirins, ou adultos igualmente esquizofrênicos, "perdidos".

Não venham agora com discursos moralistas, já que podemos nos encarregar dos mesmos em nossas mensagens de Natal de fim de ano. Estamos, como um bom Papai Noel, com o saco cheio delas e para todas as idades: da mais tenra à mais decrépita- em sua sede de juventude e medo da morte. Dessa morte que nos é tão cara".

(Carta enviada a mim por um dono de uma grande empresa, que mantém fortes relações com certos setores da política nacional e internacional).

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Lançamento em DVD






Enquanto diretores como John Ford e Howard Hawks eram contemplados à época do VHS, King Vidor era meio que deixado de lado.

Como o mesmo espírito pioneiro dos demais citados, seu cinema guarda uma decisiva relação com a terra (o telúrico), o que poderia aproximá-lo, por esse motivo, do cinema de Ford, a incluir a iconografia cristã. Mas tal como o mestre que ficou mais conhecido por faroestes, na obra de Vidor o puritanismo não deixava de ser criticado. É o que se nota em um filme como Ruby Gentry (ou A Fúria do Desejo, no Brasil).

O diretor não se prendia à firulas ou sentimentalismos, podendo, então, estar mais para o cinema de um Howard Hawks? Contudo, independente de Ford ou do autor de Rio Bravo, seus filmes contém estilo próprio e poucos foram tão veementes no cinema norte-americano.

Por exemplo, em Ruby Gentry, Jeniffer Jones exala excesso de autenticidade e de emocionalidade, a não caber nos padrões interioranos e esnobes da comunidade em que é levada a viver. Essa personagem não deixa de expressar a tônica de parte considerável da obra de Vidor. Tal como o comportamento de Jeniffer, a natureza é filmada em seu estado bruto, com algo a qualquer momento podendo irromper de suas camadas. A água comparece com o caráter expressivo da drenagem de O Pão Nosso (do mesmo diretor). Mas não somente.

Se a interpretação de atores remete a um cuidadoso classicismo, a encenação não abandonará um sentido do selvagem, em que os espaços/ cenários contaminam os personagens e vive-versa. A natureza opera tanto como mistério do desejo, quanto como segredo mítico do universo.

Jeniffer não cabe nos papéis de moça dama, coberta de apetrechos, assim como o diretor King Vidor em sua forma de trabalhar. Ela não pede que um homem lhe abra a porta do carro, além de caçar animais por sua conta e risco e nunca fingir. Todavia, uma anti-dondoca vivendo em um mundo com papéis tão demarcados provocará mais tensão.

Sem abrir mão da iconografia cristã, a obra, no entanto, cutuca um lócus pautado pelo patriarcalismo demagógico. A câmera altera seu posicionamento com parcimônia e por breves segundos, o que aumenta o poder sugestivo e meditativo das cenas. Mas pouco disso é necessário quando se filma com rara expressividade um cenário de terra, água, arbustos, que parecem conter sua própria força, em mutismo e intensidade.

Ruby Gentry , afinal, é uma tragédia de grande porte, cósmica. Vidor a conduz com sobriedade e, paradoxalmente, um olhar atento ao “selvagem” que brota das coisas e seres.

Parte2-

Cineasta tão bom quanto Hawks ou Ford, o diretor agora pode ser contemplado na era do dvd em outras obras-primas, tais como Aleluia, O Pão Nosso, ou O Homem sem Rumo. O que seu cinema parece ter levado às últimas consequências em Ruby Gentry, já pode ser notado nos realizados bem antes do período.

O Pão Nosso mantém certo equilíbrio na encenação, mas também dando margem às irrupções, como em um final que revela heróico esforço manual e espiritual, partilhado por homens comuns.

Já Aleluia nos apresenta tanto a sensatez, quanto uma bruta expressividade da fé religiosa. O diretor valorizava o despojamento em gestos e atitudes, filmados junto ao mistério de uma natureza, ora impassível, ora generosa, ou primal.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Blake Edwards








Morreu o mestre de grandes comédias: da série A Pantera cor-de-rosa, The Party (ou O Convidado bem trapalhão), entre o brilho de Bonequinha de Luxo, Victor ou Victoria, Anáguas a bordo,..

Resta uma vaga percepção de que suportamos -ou não- o besteirolismo que tem tomado conta do humor Hollywoodiano.

Edwards, além de comediógrafo, apresentava uma visão peculiaríssima de mundo e de cinema em suas obras.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ruas tomam frente de escolas








Se no caso da Europa haveria, segundo Jean Luc- Godard em sua última obra, excesso de livros, no Brasil temos escassez de acesso aos mesmos: incentivos, preços acessíveis, escolas qualificadas para tanto.

Diante do fato, ruas têm dado baile em escolas que, aliás, passam filmes, mas sem nada esclarecer sobre a linguagem visual em voga.

Para Godard, no caso de europeus afogados no livresco, caberia uma percepção propriamente da imagem, do cinema. No caso do Brasil, a meu ver, de ambas: tanto da lida/escrita, quanto da cinematográfica, e suas "derivações".

Contudo, as alternativas comparecem de onde menos se espera. Não tanto do Ministério da Educação, que havia abolido o programa de Erradicação do Analfabetismo, ao eliminar Cristovam Buarque do cargo. Não do saber institucionalizado- argumento de autoridade- tão difundido no país desde o "tempo do bolinha", em seu excesso de citações e aforismos tornados bordões.

Prática muito bem ironizada por Machado de Assis em suas obras, por meio de narradores "casmurros" que, ao não pagarem o preço por suas visões, escondiam-se atrás dos recursos de um "discurso de respeito".

O escritor em questão sequer poupava os modismos absolutistas da época: determinismo, positivismo, cientificismo, junto às castas de "respeitáveis chavões". Por essas e outas, sua obra permanece tão atual, inclusive como estudo original de nossas entranhas.



"NA NOITE DE SÁBADO PASSADO, ventava e caía garoa nas dezenas de crianças espremidas numa viela íngreme e tortuosa de um bairro da periferia de São Paulo (Jardim Ibirapuera), transformada provisoriamente em sala de cinema. Nenhuma delas saía do lugar. Estavam atentas ao filme "O Garoto", mudo e em branco e preto, de Charles Chaplin.

Entre as cenas, quem dava dicas sobre o filme (tinha legendas em inglês) era o apresentador de TV Marcelo Tas, que fora atraído para aquela viela por um personagem que daria um roteiro ainda mais interessante do que o que se via na tela: um ex-traficante, Anderson Agostinho (apelidado Buiú), de 29 anos, que se apaixonou por livros. "Vi que também podia fazer com que as crianças gostassem de ler", conta Buiú.

Resolveu, então, fazer misturas sedutoras. Uma delas foi a criação de um campeonato de futebol em que, para participar, os garotos têm de fazer parte de uma roda de leitura. Outra foi a leitura que antecede um filme, com direito a pipoca e refrigerante.
A tela fica na viela, em cima da casa de Buiú, até pouco tempo só conhecido por causar medo.



Ele seguiu uma trajetória infelizmente comum: deixou a escola, abusou das drogas, viciou-se e, para bancar o vício, virou assaltante e traficante. "Eu tinha poder de liderança." Mas, vendo os amigos serem presos ou mortos, começou a pensar que iria seguir o mesmo caminho. "O que me incomodava mesmo era o sofrimento da minha mãe", diz, apontando para sua mãe, uma das espectadoras, naquela noite de sábado, do filme de Chaplin.

Como gostava de grafitar, Buiú meteu-se num programa de artes plásticas na região do Jardim Ângela, na zona sul. Passou a ter contato com arte-educadores. "Tive, então, a ideia de fazer alguma coisa na minha viela."

Testou a leitura. Primeiro, criou o campeonato de futebol com roda de leitura. Professores da região não só estimularam a ideia como quiseram contribuir na organização dos encontros. Com a aceitação, ele resolveu fazer, uma vez por mês, o cinema. Antes de cada sessão, alguém lê um trecho de algum livro.



Buiú voltou a frequentar o ensino fundamental. E quer ir mais longe. Descobriu uma pequena casa, no fim da sua viela, que poderia ser usada como biblioteca. "Virou meu sonho." Imagina que, com aquela casa, as crianças e adolescentes vão ficar menos nas ruas e mais metidos nos livros. Está percorrendo várias associações do entorno, entre as quais a Casa do Zezinho, da pedagoga Dagmar Garroux, para ver se o projeto da biblioteca sai do papel.

Uma das ideias é criar uma espécie de "viela-livro". Em todos os muros da rua, seriam copiados trechos de romances, contos ou poesias -o final daria na sonhada biblioteca. "Dá para encher este lugar aqui de poesia."



Enquanto a biblioteca ainda permanece no plano da ficção, o projeto como um todo já está atraindo uma série de pessoas -Marcelo Tas é uma delas- dispostas a fazer deste Natal um mutirão para coleta de livros para a viela."

(reportagem de Dimenstein)

Breves notas de um cinema do interior





Enfim, consegui assistir ao “Tudo pode dar certo”, de Woody Allen.

A primeira visão evocada é que se trataria bem mais de um filme de roteiro do que de imagem. Para o primeiro registro, até diverte. Para o “segundo”, falta alguma convicção e gana. Para ambos, os achados encavalam-se, sem o devido suporte da encenação.

Dá pra pensar que, parte do fato se deva à utilização de um protagonista saído do meio televisivo e que, por sua feita, o cinema de Allen, mais afeito, a rigor, à história do cinema e sua consequente filtragem teria fica um tanto quanto perdido num meio de caminho.

De qualquer forma, o diretor tem envelhecido -é claro-, como todos nós.

Mas se em seus melhores filmes, os "achados" carregavam consigo um forte substrato cético e mesmo pessimista, a imagem, por sua vez, tendia a um vigor, a uma crença na filmagem por espaços captados.

Dessa feita, o alter ego é mais ranzinza do que o habitual no diretor, o que por si mesmo não importaria. Acontece que, a partir desse imã de vista, a encenação parece contaminada, a apoiar-se em demasia no roteiro em detrimento dos elementos em cena, na maneira de conduzi-los, por um pobre sentido do tempo,... em que as coisas se acavalariam até um final. O que termina por transmitir certa preguiça de direção.

Se a mesma encontra-se sacrificada, o filme, em todo caso, pode funcionar como divertido programa televisivo.


Suprema Felicidade marca um retorno de Arnaldo Jabor ao mundo do cinema, com irregularidades que não chegam a desmerecer o filme.

A obra custa um bocado a engrenar, mal se sustentando em sua caricatura de Fellini, fundida a resíduos teatrais de Nelson Rodrigues. Os atores, em sua maioria, encontram-se bem deslocados em cena, coincidindo com o fato de Jabor abordar um Rio de Janeiro distante do “cenário jornalístico” atual.

Com o tempo, o cineasta passa a apostar com menos receio nas imagens, o que rende belas cenas, tais como a do carnaval de rua, a irromper abruptamente do extracampo para o campo, nunca se definindo por inteiro. O enquadramento é trabalhado como coreografia, em função dos cortes e tomadas, igualmente coreografadas com discrição. A direção, nesse caso, busca pontos e linhas de fuga de uma cidade e seu imaginário em que, tendo em vista o contexto repressivo, recusa limites.

Ao restante dos bons momentos coube a utilização de um recurso especificamente cinematográfico, o close, muito bem empregado em certos momentos, sobretudo quando do processo de consumação do primeiro amor do protagonista.

Filmados de forma pouco invasiva, rostos são captados e construídos em nuances, com propriedade de delicadeza.

Suprema Felicidade é, enfim, um filme feito de momentos que garantem seu interesse.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Escolas e Escolas





No post abaixo, deixei um comentário sobre a direita festiva, algo que se tornou moda em imprensas com maior peso de influência no país.
Articulistas, em sua maioria, parecem falar uma mesma língua, bradando contra os mesmos "leões", e confesso que é algo que entedia um bocado.

Ainda assim, fiquei devendo um comentário sobre parte de uma "esquerda" que se considera "luz do mundo".
Humanistas que creem que, por seu próprio esforço, irão transformar o universo: Era de Aquário, combinação de neohippismo com Pandora, o planeta de James Cameron em sua superprodução para a Hollywood dos lobbies modistas.

Essa gente "santa" guarda seus maiores pecados em outros departamentos da alma. Dizendo-se a favor da liberdade, defendem o autoritarismo do "bem coletivo".

Em termos educacionais, seguem a cartilha dos primeiros livros pedagógicos de Rubem Alves, por exemplo. Os quais insistiam na tal sedução para o saber.

Para crianças, essas cartilhas até funcionam bem.
Já para adolescentes e adultos operam como justificativas para a fuga de certa "dureza" implicada em leituras, comprometimentos, reflexões um pouquinho mais agudas.

O mundo já mudou em demasia de lá pra cá. Temos o estatuto da criança e do adolescente e tantas outras coisas. Portanto, precisamos de novas concepções para um novo momento.

As crianças, segundo pesquisas, são as que mais influenciam os pais quanto à escolha das marcas em compras efetuadas. Carregam poder de compra, sem mínima autonomia para tanto.

Adolescentes, muita das vezes, não sabem lidar com desafios. E não me refiro, especificamente, à mercado de trabalho.

Trata-se de uma cultura povoada por romances de fácil deglutição,tão bem inseridos no mercado, que dificultam um trabalho crítico-reflexivo, tanto quanto um desafio frente à linguagens mais inventivas ou orgânicas, terminando por formar jovens suscetíveis demais, com muitos "direitos" e poucos deveres.

Desprezam Graciliano, Machado em nome de fadas e doendes. Isso em pleno Ensino Médio, com a cumplicidade de pais e coordenadores.

Não digo que se deva ler somente "clássicos". Daria até pra conciliar, mas tais leituras são tão hipnotizantes, impostas em disseminação aliciadora por mídias em jogo, que fica difícil o desafio de encarar outros autores- apostando na tão falada diversidade.

Quando os livros me mimam, torna-se insuportável ler qualquer coisa que caminhe por outras direções. Mesmo bulas de remédio. Tomar o remédio sem ler, como forma de me anestesiar. Seria esse o "remédio" para a educação?

Como muita coisa já chega pronta no google, como "várias" de fácil alcance, materiamente falando, muitos negligenciam, e de forma blasé, conquistas que propiciaram os bens de que usufruem. Daí,o empacar no presente perpétuo.

Em termos de escola privada e adjacências são os adolescentes quem mandam. Se não forem com a cara do professor, o mesmo terá de pular fora.

A educação, por mais que queiram dizer o contrário, não passa de mais um negócio. É a Editora Abril comprando o Anglo.

E por mais que se criem novas universidades federais e cursos técnicos, como têm ocorrido, comparativamente a um momento em que as mesmas eram sucateadas, o crescimento avassalador de faculdades privadas à distância vêm tomando conta na "nova ordem mundial" da pedagogia mercantil.

O grupo que mais oferece graduações e licenciaturas à distância hoje chama-se Roberto Marinho. E alguns ainda podem se perguntar, como conter Robertos e Civitas, na engrenagem da educação tornada mimo e negociata? Não será, em contraponto, formando ursinhos de pelúcia, com seus desejos legitimados por mercados e pais. Pardon: onde está "desejos", leia-se: caprichos.

Não será dogmatizando com "novos-velhos" e rígidos padrões questões do saber e do viver, com base em teorias já engessadas, com rosto de perfeitas, "politicamente corretas", a colocarem-se como salvadoras da humanidade, em nem tão implícito missionarismo autoritário. Em nome da "liberdade" e da diferença, embora tão logo exclua a última, no momento em que a mesma dissida em algo do modelo político propalado como mais avançado, embora o mesmo já esteja defasado frente à novas questões do mundo.

Tais escolas se afastam do mundo, compondo-se como mosteiros, como o outro-mesmo lado do que pensam combater. No entanto, a partir de uma atitude reativa, como que a substituir monges católicos. Constituindo-se como os "novos mosteiros" do modismo New Age.

Não à toa que, em meio a tantos princípios fixos, jovens sintam-se em importância desproporcional, como que sendo partes da melhor família da Terra, a desprezar demais escolas como inferiores.


Ps- Rascunhei(de uma lan) sobre a escola como um negócio da direita festiva, e sua contrapartida igualmente problemática: a New Age, pretensamente esquerdista e que de tão aferrada a seus dogmas, não consegue uma articulação com novas problemáticas.
Ou seja, não podendo ou conseguindo habitar o "mundo de fora", e criticando as aparências, terminam por cultuar sua autoaparência, a não passar de mais um partido com alma de "elite". Com a diferença de não se assumir enquanto tal.

Viva a liberdade!

Desculpem o "gerundismo", mas tal como muitos linguistas, não creio mesmo na balela.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Murilo Mendes






Há aqueles que abraçam um novo tempo ou novos tempos, como se os mesmos fossem abdicação histórica. Entendem a mesma como "processo evolutivo": teríamos saído, como homens da caverna, direto para a abertura a um reino de progresso material, intelectual, espiritual e científico.
Seríamos hoje "mais livres", em escala ascendente.

O mesmo raciocício se daria com as artes, tanto quanto com a metafísica.
A primeira "inútil". A segunda, "caduca".

Do contrário, podemos ser "cults fakes".

Por outro, rotulados como "fundamentalistas". Então, cuidado com a nova vigia de roupagem liberal. Crer, por si só, passa como sinônimo de fundamentalismo-essa palavra gasta.

Nesse raciocícinio é composto quimicamente um novo tipo de fundamentalismo, em que uma suposta visão da complexidade do mundo, do real, tão logo multiplica filhotes de "existencialistas franceses", chiques blasés, niilistas na dita "contemporaneidade".

Ou seja,como parte integrante de uma religião dita mais lúcida, mas, a rigor, somente mais desencantada.Embora tida como mais rigorosa, pra inglês ver.

Uma nova fôrma para se apegar, não simples, de fundo simplista, mas nunca admitida como tal. Uma religião tão bem organizada como qualquer outra, de um sistema tão falho quanto qualquer outro. Autojustificada como se fôssemos parte de um Novo tempo, o que excluiria o restante como "devaneio", "idealismo",etc.

Por um lado, alguns se entendem como parte de uma espécie de "Era de Aquário". Essa, a meu ver, implodida já nos próprios anos 60, em suas bolhas de basilisco lisérgico.
Hippie hoje é de botequim, mas insistimos acreditando em Pandora, nosso último refúgio de locus romântico, sem nunca admiti-lo como tal.

Se no Romantismo se fugia para trás, a fuga hoje é para frente, não guardando exatamente relações com o termo pioneirismo, para o bem ou para o mal.

Se menos exotéricos, somos direitistas festivos que, em nosso cinismo de adaptação terminamos, direta ou indiretamente, por aprovar tudo o que denominamos como "Real":
"É espúrio, mas é real...então, deixa valer".

"Real", uma instituição tão cultural e construída como as demais, assim como o plano Real que, posteriormente, passaria por sua crise cambial. Baixa na inflação não resolve desemprego em massa, precarizações no trabalho, problemas na saúde ou educação.

Tampouco o vigente Cálculo Previdenciário, criado em "pleno Real", como forma de reduzir o valor da aposentadoria, a desprezar anos de idade tanto quanto os efetivamente trabalhados.

Tal cálculo pensou em um presente imediato, sem calcular o futuro de idosos no país. Tendo em vista a crescente redução de nascimentos, presidentes de um "eterno presente" aposentam com seu salário de governo, enquanto aos demais é reservado um limbo, denominado Fator Previdenciário.
Parabéns aos modernosos blasés!

Se o romantismo do passado era uma enganação que nos levava a criar expectativas desproporcionais em pessoas ou causas, sua compensação niilista é a outra faceta de nossas frustrações, agora transmutadas em cúmplice embrutecimento. Ou em "administradoras de coisas".

Podemos não ser Emos, Góticos, mas abraçamos a "secura" como uma bela prenda, nos inspirando em Hemingway, como o grande mestre da escrita: nosso dogma mais íntimo, oculto e religioso.
No caso da poesia, nada vale se não copiarmos João Cabral...
...basta disfarçar um pouco.

Cabralianos sem cabral- ou não- deixemos pra depois.

Abaixo, poema de Murilo Mendes, que não recusou a metafísica colada ao demasiado humano.
Teria ele caducado? Ou nosso desencanto ranzinza, estilo alter ego de penúltimo Woody Allen, é o que nos torna tão exultantes do "desespero festivo"?

Viva a intelectualidade Axé da direita brasileira, travestida de letrada- deve mesmo ter de pular e se embebedar-, como forma de, quem sabe?, "compensar" seu deserto ético, narcísico.

...E, ao ser irônico, quase me entrego ao cinismo que menciono por aqui...






"Vocação do poeta"


(Murilo Mendes)

"Não nasci no começo deste século:
Nasci no plano do eterno,
Nasci de mil vidas superpostas,
Nasci de mil ternuras desdobradas

Vim para conhecer o mal e o bem
E para separar o mal e o bem.
Vim para amar e ser desamado.

Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos

Não vim para construir a minha própria riqueza
Nem para destruir a riqueza dos outros.

Vim para reprimir o choro formidável
Que as gerações anteriores me transmitiram.

Vim para experimentar dúvidas e contradições.

Vim para sofrer as influências do tempo
E para afirmar o princípio eterno de onde vim.


Vim para distribuir inspiração às musas.

Vim para anunciar que a voz dos homens
Abafará a voz da sirene e da máquina,

E que a palavra essencial de Jesus Cristo
Dominará as palavras do patrão e do operário.

Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco,
Pois se O visse de repente, sem preparo, morreria."

domingo, 5 de dezembro de 2010

Línguas e Linguagens








Algumas vezes nesse espaço foi falado sobre Oswald de Andrade, Mário, Carlos Drummond, Adoniran Barbosa, Noel Rosa,... Com o intuito de procurar entender o que seria uma tal “língua brasileira”.

O primeiro movimento de busca de uma literatura mais autônoma no Brasil foi o romantismo. Mas, na maioria das vezes, celebrava-se nossa exuberante natureza e nenhuma pesquisa viável sobre cultura propriamente dita chegava a ser feita, ou bem era ignorada.

Em José de Alencar, a natureza brasileira representa o paraíso. Mas tal Éden só seria completo em casamento com a cultura do colonizador.

Lima Barreto, pré-modernista, consumou uma linguagem mais despojada, a ponto de ser tratado pelos monarcas da língua como escritor de incorrigível desleixo. Além do mais, negro.
Hoje, percebe-se que está entre nossos melhores.

Machado de Assis, igualmente mulato, “se escondia” atrás de um narrador de certa casta brasileira.
Sua narrativa era a voz de um protagonista casmurro, volúvel, incapaz de lidar com certas situações como, por exemplo, aceitar viver, sem dramas de consciência, com uma mulher que chegara a estabelecer amizades com homens(na obra Don Casmurro).

Muitas ainda confundem o narrador com o escritor, como a crítica Pauline Kael fez em um texto sobre Rastros de Ódio, chamando John Ford, diretor da obra, de racista, pelo fato de seu protagonista sê-lo em demasia.
Não soube separar o cineasta do personagem doentemente obsessivo.

Com o Modernismo propriamente dito, milhares de arestas deixadas por românticos, parnasianos e etc., seriam ironizadas e limadas.
Sem o esforço, talvez não houvesse Graciliano Ramos, Carlos Drummond, Murilo Mendes, Clarice, Guimarães Rosa, entre outros e outras.

Contudo, com o empenho grandioso de autonomia e pertinência de um linguajar, não conseguiríamos escapar ainda de Marquês de Pombal em muitas esferas, desde que o mesmo impôs uma língua oficial, unificada e lusitana para o Brasil.

Simultaneamente, o mesmo marquês que dinamitava com a educação brasileira, ao empregar professores na base do “espontaneísmo”, em que o critério era a falta de critérios.

Um tanto por conta isso, nossas petições são mais demoradas, nossos exercícios jurídicos morosos, etc.
Somos um país de burocracias infindáveis e tudo isso, claro, passa pela língua, já que a mesma significa poder.
E, no caso formal-formalista, marca de “status”, reconhecimento social.

Brasileiros sempre buscaram marcar sua distinção pela língua, em que profissões ditas “respeitáveis” exigiam uma mimese do léxico mofoso pombalista.
Quem falasse mais para “brasileiro do que para português” (Noel Rosa) sinalizaria seu locus de “cozinha da nação”.

Nos anos 50 e 60, com a brecha de ditaduras anteriores, como a de Vargas, o país experimentou um imenso crescimento cultural: música, teatro, arquitetura, cinema, em que muitas das lições modernistas passaram, enfim, a serem incorporadas por artistas e outra parte da população. Mesmo que antes disso, músicos como Noel Rosa ou Lamartine Babo, em plena ditadura anterior, exploravam a autonomia e abertura nos modos de se expressar.

Em 1964, houve -pra variar um pouco- outro golpe militar e, posteriormente, um terrorismo mais acirrado, com a instalação do AI-5 em 1968.
Tornaríamos a regredir para o oficialesco oligárquico, em nome da “integração e da segurança nacional”.

Com Médici no poder, a educação era redinamitada, em busca de um modelo industrialista de fragmentação de saberes mecanizados, entre outras “intempéries inócuas”, como diria algum dicionário bestialógico.

Com o advento das Diretas (nem tão diretas assim, por obra e graça de nosso colegiado eleitoral), assumiria o oligarca José Sarney como presidente do país, com seu linguajar bacharelesco. O mesmo-mesmíssimo político do outrora partido único da ditadura: a Arena.

A partir das breves observações, podemos entender um pouco da relação entre linguagem, estagnação e poder retrógrado no Brasil.
O mais, deixo por conta do linguista e escritor Marcos Bagno:



“Quando os revolucionários franceses demoliram a Bastilha em 14 de Julho de 1789, decerto ficaram tão emocionados com o feito que se esqueceram de demolir outro prédio, o da Academia Francesa. Que pena!

Tanto quanto a Bastilha, a Academia representa o que há de mais arcaico e feudal. Basta lembrar que foi fundada em 1935 por ninguém menos que o cardeal Richelieu (para quem leu ou assistiu Dartagnan...), todo poderoso chanceler de Luís XIII, em pleno apogeu do regime monárquico absolutista.

Se a coisa ficasse por lá, entre os pernósticos franceses, não teria problema. Mas os espíritos colonizados não iam suportar abrir mão de mais uma macaqueação francófila. E toca a fundar a Academia Brasileira de Letras em 1897, com os mesmos 40 membros da francesa e num prédio chamado Petit Trianon, cópia em escala menor da outra.

Criada já na República, a ABL é um belo símbolo do caráter oligárquico, elitista e aristocrático de nosso regime republicano, inaugurado por marechais.

Eu não teria nada contra uma Academia Brasileira de Letras se ela prestasse para alguma coisa.

Mas como querer cobrar qualquer presença significativa de uma entidade que tem entre suas “imortais” figuras desprezíveis como José Sarney, senhor feudal do Maranhão e do Amapá, e Marco Maciel que (graças a Zeus!) não foi reeleito pela ducentésima vez para cumprir seu destino reptiliano de “se há governo, sou a favor”...

Adorei quando o bruxo Paulo Coelho foi eleito para a ABL, pois assim o escracho se institucionalizou de vez. No entanto, lamentei quando as mulheres foram admitidas nesse antro de vaidade essencialmente masculina (aliás, vaidade masculina é redundância: comparada à dos homens, a vaidade feminina é uma bênção). E, claro, essa admissão se deu porque a matriz francesa abriu as portas às mulheres.

Quando vejo a produção, por exemplo, da Real Academia Espanhola, fico roxo de inveja. O dicionário da ERA é uma beleza, abrange todas as variedades das línguas faladas mundo afora...
Recentemente, em conjunto com todas as academias de língua espanhola do mundo, foi publicada uma monumental gramática da língua, em dois volumes, com mais de 3.000 páginas, contemplando e dando aval a todas as formas de falar a língua, já devidamente implantadas nos diferentes países.

O problema do português é que ele é uma língua polarizada: Portugal e Brasil. E como tradicionalmente somos colonizados por portugueses, apesar de termos um território dezenas de vezes mais amplo, uma população dez vezes maior..., ainda temos de acreditar nas bobagens que as gramáticas normativas tentam nos ensinar, desconsiderando por completo as características próprias do português brasileiro. E toca a usar mesóclise e outras igualmente ridículas... ”! Ay, qué invidia!”


Ps. O texto de Marcos não fala, mas Roberto Marinho chegou a ser bacharel na Academia.
Ou seja, chegou a ser “imortal” até morrer.
Drummond, por sua vez, ao ser convidado, preferiu recusar o penduricalho.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

João Pereira Coutinho


Ligados à máquina



"... Um exemplo: alguém me apresenta uma celebridade, dessas que são conhecidas por serem conhecidas, e eu finjo que nunca ouvi falar. "Como é mesmo o seu nome?"

O personagem em causa repete o nome, como se tivesse escutado uma heresia. O rosto não mente: a estupefação profunda; o naufrágio iminente; por vezes, a revolta silenciosa, dolorosa; mas, em todos os casos, uma velha insegurança, que vem das profundezas da alma.

Às vezes, quando estou em forma, subo a parada. A pessoa repete o nome. E eu, propositadamente, troco a profissão. Se é um cantor, digo que já o vi numa novela. Se é um ator, confundo com um cantor. É o golpe final na vaidade da criatura.


A minha perversidade não é um traço de caráter. De mau-caráter. É, quando muito, uma experiência sociológica: as pessoas podem ter todos os aplausos do mundo; podem ter legiões de assessores, adoradores e puros escravos; mas se não existe uma personalidade segura e forte por detrás da máscara, qualquer pequena pedra na engrenagem faz tremer e descarrilar a máquina. Eu sou essa pequena pedra.

...Mas nunca esperei encontrar um irmão gêmeo em Michael Foley. Encontrei.

Michael Foley é um filósofo britânico e o seu "The Age of Absurdity" (Simon & Schuster, 260 págs.), que li às gargalhadas numa sala de aeroporto, é um prodígio. Não de filosofia, porque o livro não pretende ser um tratado filosófico. É apenas uma observação perspicaz das nossas loucuras contemporâneas.

E, a páginas tantas, Foley descreve a forma como as celebridades inglesas reagem sempre que ele finge ignorar quem elas são. De fato, a vaidade da natureza humana é igual em qualquer língua.Nem poderia ser de outra forma.


O Ocidente rico e pós-ideológico vive mergulhado numa combinação mortal de desejo permanente e insatisfação permanente. Queremos sempre tudo. Queremos sempre mais. Pior: sentimos que merecemos tudo e temos direito a mais. Mais dinheiro. Mais amor. Mais sexo. Mais reconhecimento. Mais, mais, mais.
Mas, precisamente por querermos sempre tudo e sempre mais, nada do que temos resolve a nossa agônica impermanência.

Nada disso é novo: não existe religião ou filosofia clássica, a começar pela estoica, que não tenha relatado os dramas dessa "dança macabra": a dança do desejo e da sua perpétua insatisfação.

A originalidade de Foley está em aplicar essa verdade aos aspectos mais anódinos do nosso cotidiano, mostrando a "dança" em funcionamento. Nas escolas. Nos lugares de trabalho. E até nas relações pessoais, onde aplicamos o mesmo raciocínio que preside às nossas idas ao shopping do bairro. Se podemos comprar tudo, por que motivo a pessoa que vive ao nosso lado não nos pode fornecer tudo também?

Michael Foley não fica no diagnóstico. Sugere terapia para aliviar essa estranha condição de nos sentirmos como lixo apesar de vivermos em condições materiais com que os nossos antepassados apenas sonhavam.

Mas aqui reside o primeiro mito: a riqueza material é importante; mas, a partir de um certo grau de conforto, a droga não resulta mais.

Robert Nozick, outro filósofo citado por Foley, sabia disso: 30 anos atrás, Nozick pedia-nos que imaginássemos as nossas vidas ligadas a uma máquina. E a máquina simularia experiências altamente satisfatórias, capazes de substituir o vale de lágrimas onde nos arrastamos.

A conclusão de Nozick é glacial: jamais aceitaremos trocar a vida imperfeita que temos pela vida perfeita que a máquina nos concede. Jamais aceitaremos trocar a autenticidade por uma farsa, mesmo que a farsa seja aprazível.

Foley concorda com Nozick. Eu concordo com ambos. Em teoria, e nos momentos de ócio ou desespero, podemos abominar as dificuldades; as responsabilidades; e, no limite, a nossa perturbante mortalidade.
Mas, paradoxalmente, é a dificuldade, a responsabilidade e a consciência do fim que tornam as nossas vidas significativas. "Tudo que é importante é difícil", escreve Foley.

Ou, por outras palavras, de que vale uma máquina de experiências perfeitas se nenhuma dessas experiências foi realmente conquistada e merecida?
Desconfio que as celebridades ocas que encontro com frequência teriam muito a aprender se, de vez em quando, desligassem a sua vaidade da máquina. E viessem cá para fora viver."

(João Pereira Coutinho hilário e sério, em momento inspirado)
(Foto de Blow up, filme de Michelangelo Antonioni)

sábado, 27 de novembro de 2010

Balanço





Passada a temporada de shows de Paul McCartney no Brasil, fico a observar alguns suplementos culturais de nossos jornais.

Certa feita, cheguei a escrever que não aguentava mais ouvir o artista tocar Yesterday, Hey Jude e Let it be.

Hoje, ao ver o público de jovens e mais velhos no Morumbi, me impressiona a vitalidade dessas músicas, sua capacidade de encantar novas gerações, estabelecendo um diálogo intergeracional.

Isso não se restringe, claro, à estratégias de mercado, ao fetichismo do mito, etc. Os clássicos de Paul são modernos, o que não deixa de ser uma redundância.

Todo grande clássico é moderno. Enquanto o que se diz moderno, mas não é tão bom, já é feito para durar pouco, tão logo envelhecendo. A estratégia da obsolescência programada. A máquina precisa girar.

Os celulares são cada vez mais “inovadores”. Aquele que não possui o último modelo é tido como velho, pessoa ultrapassada. O dito “novo”, já nasce velho, pois tão logo será substituído pelo próximo, e daí por diante...

As músicas, os filmes, em sua maioria, precisam muitas vezes aparentar esse ar modernoso de novidade. Nesse fetichismo do “novo”, são esquecidos rapidamente, ou lembrados em reminiscências vergonhosas.

A grana precisa circular a um ritmo incomparável como o tempo.Precisamos do “cálice da juventude”. Alguns não saem das academias. Corpos são cada vez mais “inovadores” e seguem prontos para campeonatos de “beleza e força” para, tão logo, serem jogados “no lixo” da mesmice programada.

Falamos muito em ecologia. Se eu e um cachorro estivermos acidentados na rua, a Sociedade Protetora dos Animais certamente salvará meu amigo de outra espécie.

Falamos em natureza, crescimento sustentável.Dizemos para jogar papel no lixo, o que é uma boa, claro.
Mas, substituindo os produtos com tanta rapidez, num processo de contínua descartabilidade, para onde iria tanto lixo tóxico?

O (ex) vice da candidata Marina é também dono da empresa de cosméticos Natura. Produtos feitos, segundo a empresa, como forma de respeitar o equilíbrio ecológico.
Mas ao preço de uma das mais intensivas precarizações de trabalhadores que há no país. A região Norte nos guarda inúmeros “mistérios”.
A natureza nos importa mais do que quem trabalha de forma escrava.

Voltando um pouco agora para Paul McCartney, que também é conhecido hoje como um ecologista, embora em uma entrevista não me tenha parecido xiita.

Será lembrado, em todo caso, como um dos principais compositores do século XX.

Sabe-se que Yesterday é a música mais regravada no mundo.Ok.
O que importa, de fato, é que seja a primeira canção dos Beatles a investir ousadamente em belíssimas cordas.

Let It be é um spiritual pop de primeiríssima, com belíssimos vocais ao fundo, independente do número de vezes que foi interpretada.
Hey Jude não chegou a ser estragada por Kiko Zambianqui.
Na versão dos Beatles, guarda muito da herança negra, com gana e garra.
Kiko até tentou, mas não será jogada no lixo.

De minha parte, não me importaria se Beethoven executasse ao vivo, para grande platéia, sua Quinta ou Sétima Sinfonia. Nem menos a Nona, de que gosto menos, mas ainda acho que cairia bem.

Não é todo dia que o próprio compositor pode interpretar suas músicas no Brasil. McCartney só veio por três vezes ao país, contando essa última. E seus clássicos são modernos(a redundância de novo).

Não acharia estranho se George Gershwhin interpretasse Sumertime ou Not for me em um show. Até gostaria.

Nem que Tom Jobim executasse Wave. Richard Rodgers, Blue Moon ou My Funny Valentine. Sinatra interpretasse I ´ve got you under my skin, de Cole Porter. Ary Barroso, Aquarela do Brasil ou Burt Bacharach, Walk on by. Não é todo dia que se pode ouvir coisas como essas ao vivo.

Embora lamente nunca ter ouvido McCartney tocar :

Dear Boy (do disco Ram), Uncle Albert/Admiral Halsey (do mesmo), Tug of War, Dress me up is a robber ( Tug o War), Mr.Bellamy ( Memory Almost full), Raise the Raindrops, About you ( Driving Rain), The World Tonight, Sumedays, Beautiful Night ( Flaming Pie), Surten Softness, No More Rain( Chaos and Creation), Pipes of Peace, Average Person(Pipes of Peace), Listen to What the man said (Venus and Mars), entre outras.

Um articulista da Folha, intitulado como crítico de música refere-se à Blackbird e The Long and winding road, executadas no show, como “deslizes bregas dos Beatles”.
Trata-se do mesmo crítico que considera a banda Oasis melhor do que a dos nascidos em Liverpool.

Quanto a The Long and winding..., pode-se até repetir, como papagaio, que Phil Spector exagerou na orquestração, feita à revelia da banda.
Verdade ou não, a música mesmo permanece ao longo do tempo com brio. Não como catálogo, rótulo “pop”, ou rock/pop”, mas como música.

Blackbird talvez seja uma das principais faixas do Álbum Branco, assim como Martha my dear ou Sexy Sadie.

Sempre me pergunto a respeito do que teria ocorrido com os ditos suplementos de “cultura” do país, que parecem delegar críticas a quem parece ter pouco ouvido música na vida. As matérias cada vez mais supérfluas, ao falar em música, ou outra coisa.
Não se trata de ser especialista em um estilo.(Independente das preferências do “crítico”, claro, o que é mais que compreensível).

A resposta talvez seja que, tal como celulares no mercado, elas precisam parecer “chocantes”, tanto quanto igualmente descartáveis.


Ps. Já consta no repertório de McCartney, Ram On, espécie de lindo “mantra” presente no disco Ram, Mrs. Vanderbilt, provavelmente a melhor faixa de Band on the Run e, de um tempo para cá, Here Today, um dos destaques de Tug of War, que foi chamada de "adocidada" por um "crítico de música".
Tão "adocicada" quanto My Funny Valentine.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Heráclito




Reflexão n.1


Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.


Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

(Murilo Mendes)



Murilo, poeta mineiro, que passou pela geração desmistificadora do primeiro modernismo, com sua ironia frente ao domínio lusitanista, inclusive na linguagem.

Seu primeiro livro reconta a "História do Brasil", em outra chave, bem distinta da oficialesca(daquela gerada a partir da carta de Pero Vaz de Caminha).

A poeta trabalha sob tônica espiritual, o que seria coroado em uma obra com Jorge de Lima. E sempre mantendo uma forte relação com as artes plásticas das vanguardas da época, o que pode ser notado em seus poemas, repletos de imagens.

Sua busca sempre foi no sentido de revelar alguma ordem no caos.
Corpo e espírito, para ele, não seriam dicotômicos.

Há uma forte presença do sensorial em sua obra, assim como podemos notar nas referências à figura feminina, sempre com grande força na presença.

Amante de Mozart, por um lado e do imaginário, por outro, não abandonou um forte sentido de concreção em seus textos.
Esse último elemento seria radicalizado ao final, com um sentido de ascese não muito distante das preocupações de rigor formalista, à maneira das de João Cabral de Melo Neto, o engenheiro da linguagem.

Nem por isso deixaria de ser chamado- e não sem razão- de poeta do ar.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Consciência negra?









Saiu uma reportagem na Folha de São Paulo falando de uma mania, a obsessão por limpeza.

A publicidade tem investido com força em produtos que se colocam como hiperpotentes para a morte de vários germes. E, quando se mata muitas bactérias, o sistema fica indefeso.
A tendência é sacrificar bactérias neutras, fortalecendo as demais.

Quando a “limpeza” étnica era justificada em nome da biologia, das ciências, a expressão aplicada era eugenia. A reportagem sobre a obsessão com germes aplica o termo higienismo.

No filme de Tim Burton, “O Planeta dos Macacos”, os seres tidos como inferiores precisavam ser tratados com luvas.
Além de sujos, os cientistas diziam que “aquelas espécies” eram portadoras de terríveis doenças. Muitas vezes os menores se transformavam em bichos domésticos para agradar aos bebês dos patrões.
E tal como os negros, esses personagens eram marcados com ferro em brasa em sinal de que eram “escravos”.
Ainda que alguns reconhecessem que havia muito talento por ali, naquela cultura.

Sabemos, hoje, que o jazz, uma grande manifestação da música, passou a ser uma arte aproveitada até por músicos eruditos.
Ainda assim, os artistas permaneciam (permanecem?) marginalizados.

A soul music veio do gospel, o blues dos spirituals. Tudo arte negra.

O Brasil passou, em dado momento da história, a não exportar somente matéria prima, mas cultura, com a música de Tom Jobim, dando curso ao processo iniciado com Ary Barroso. E a base era o samba.

A Avenida Rio Branco, quando criada no Rio de Janeiro, então capital do país, optou, em nome da eugenia (da biologia, ciência) pela exclusão dos negros, imigrantes e cia de seu seio.
Os excluídos foram fazer seu samba no morro.

O Bar Zicartola, de Cartola e sua esposa, se tornaria uma escola para toda uma geração: Chico, Paulinho da Viola, Tom, João,...


Mas, voltando um pouco ao Planeta dos Macacos:

Segundo os cientistas, os seres ditos “inferiores” procriavam mais rápido, e em uma forte cena no filme há a tentativa de provar que não tinham alma.
No desenrolar da obra, a tecnologia comparece como a grande ameaça, vinda de “outro mundo”. Aliás, o nosso.

A possibilidade de se ter e usar uma arma, assim como máquinas fotográficas como forma de “registrar” tipos “não adequados”, a intensiva comunicação eletrônica como forma de buscar o “suspeito” imigrante, junto a capacetes e demais artefatos compõem uma carnavalização à maneira de Tim Burton, sua expressionista alegoria de modos de vida.

O diretor parte de uma superprodução de gênero e, paralelo a ela, vai acrescentando seus típicos elementos na composição expressionista das imagens: faces mergulhadas no rio, construções rupestres, cavernosas que apontam para o céu, tais como castelos góticos em mundo de fortes aspectos medievais.
Haverá desde o narcisismo das limpezas até a composição da decrepitude, numa inversão de perspectivas, em que alguns rostos remetem a uma pintura barroca de Goya.

O tom do patético proposital vai se tornando um tipo muito específico de horror, em que as coisas não parecem existir para agradar aos espectadores, em meio ao cenário de superprodução em massa.
Há fios soltos, uma batalha filmada em meio à névoa, ao poeirento.Anticlímaxes, enfim.

O “herói”, após uma batalha que lidera, talvez com o intuito mais de garantir sua sobrevivência do que outra coisa e poder retornar a seu planeta, símbolo de “lar e avanço”, não passará de um homem frágil diante da personificação do horror em um tipo de pedra instalada no topo da construção emblemática: A estátua de Lincoln, hierática, simbolizando um totem, um deus primitivo, sem nenhuma relação com os supostos ideais da “pátria da democracia”. “Magia” e ciência se encontram em chave crítica, soturna.

Tudo é atmosférico, indefinido. É nos planos finais que a iluminação estará mais para a do final de "Vertigo", de Alfred Hitchcock: tumultuada. A paranóia e a magia do Mal imiscuídos na América do progresso.

Para alguém como Tim Burton interessa o outro lado. O que espelhos narcísicos pouco refletem de imediato.
O outro lado do roteiro. Da superprodução.

Não se trata tanto um belo país que havia se deteriorado por conta de guerras, etc. Mas de um Mal que sempre esteve por ali, rondando, em meio à maquiagem do “sonho americano”, que os planos, de esguelha, procuram caçar e sugerir, a indicar uma linha evolutiva, de uma crueldade rupestre a uma “sofisticada”.

Parte 2-


Os neunazismos têm várias formas. Umas mais diretas, como no caso dos garotos da universidade que aterrorizaram uma “gorda”.
Ou, como no caso dos estudantes de escola particular que agrediram rapazes em São Paulo.
Há até os que atearam fogo em índios, julgando que os mesmos eram “apenas” mendigos. Ou vice-versa? Sonetos de Hitler por emendas de Mussolini.

Outra dessas formas, bem conectada com as anteriores, encontra-se nas pesquisas feitas por Joana de Vilhena Novaes.

Seu primeiro livro chama-se “O insustentável peso da feiúra”, em que a doutora em psicologia clínica abordou certo número de pessoas insatisfeitas com seu próprio corpo:

Segunda a pesquisadora, “ há pessoas que limitam sua vida social, deixam de ir à praia ou mesmo às festas. Muitas não namoram.
Chamamos essa doença de dismorfia corporal.”

“As clássicas anorexia e bulimia se juntam hoje à ortorexia, que é a compulsão por alimentos naturais, e à vigorexia, que é a dependência de exercícios físicos.”

“ As múltiplas intervenções cirúrgicas também entram nessa lista. Importante ressaltar que esse grupo de doentes da beleza é um número exponencialmente crescente.”

“O interesse pela cirurgia como forma de emagrecer está causando distorções. Pessoas que não têm o peso suficiente para a indicação da cirurgia preferem engordar até chegar ao ponto certo para ser operadas.”

“Outro tipo de operação que está crescendo é a cirurgia da intimidade.
Por meio de métodos abrasivos, mulheres têm procurado médicos para clarear, diminuir ou aumentar o clitóris. Existem até adolescentes que, insatisfeitas com seu clitóris, fazem cirurgias para tentar se adequar a algum modelo que idealizam. Em breve, teremos um boom de modelos de genitálias”, diz a pesquisadora.

“De modo geral, a cosmetologia da genitália tem crescido muito. É hoje uma das grandes buscas das mulheres de classe média e alta.”
Segundo Joana, “a necessidade de se adequar aos padrões está acabando com a autoestima dessas mulheres”. Se elas não se sentem esteticamente adequadas, chegam a reprimir sua sexualidade.

“Já na primeira infância, os pais exercem uma regulação ferrenha, como fazem a si mesmos. Trata-se de um discurso imposto em que elas passaram a acreditar. Não é apenas uma questão de autoestima. Quem não se enquadra sofre uma exclusão real.”

“O resultado de tudo isso é que as doenças relacionadas à imagem emergem de forma violenta. O sujeito passa a ser o algoz do próprio corpo.”

(Joana de Vilhena Novaes é pesquisadora do Centro de Pesquisas de Psicanálise de Medicina da Universidade de Paris e criou o Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-RJ)

Excerto de sua entrevista para Martha Mendonça.
A pesquisadora está para lançar a obra “Com que corpo eu vou?”.



Aliás, essa é a semana da "Consciência Negra"?

sábado, 13 de novembro de 2010

Papo





Para quem se interessa por conhecer parte do que há e houve de minimamente significativo na música brasileira de alguns anos para cá, esse cd contém músicas de diversos artistas, da MPB ao rock, ou rock/pop: Ludov, Mulheres Negras, Curumin, Vanguart, Mombojó, Rubinho Jacobino, Wander Wildner, Mulheres Negras, Wado, Cérebro Eletrônico, ODegrau, Numismata..

Antes do projeto, cada qual já era intérprete de artistas pops consagrados.
André, de Tom Waits e David Bowie.
Miranda, de divas do soul.

Quando se encontraram, sua química pediu por artistas espalhados pelo cenário musical brasileiro.

Pode-se não gostar de alguns dos artistas abordados, mas é necessário ressaltar que a mudança do registro de composição para a de interpretação pode fazer muita diferença.
Cantar nem é tão difícil. Mas a arte de interpretar não é para todos.

Quando Marisa Monte, "intérprete cult" e bela voz, decidiu por regravar Velvet Underground, a grande banda nova-iorquina dos anos 60 já havia deixado de ser "underground", marginal para ingressar o território da consagração "cult". Marisa só usou de esperteza, já que sua versão nada acrescentaria ao trabalho de Lou Reed e sua trupe.

Isso se daria também com Jorge Ben, que hoje parece ser o artista da MPB que mais influencia o novo cenário musical brasileiro.(Refiro-me, naturalmente, a quem gosta mesmo de música e de fazê-la, e não simplesmente dos aproveitadores de maior visibilidade).

Não deu outra. A versão de Marisa não superava ou sequer se igualava à dos anos áureos do artista.

Vanessa Da Matta me agrada. Parece bem menos afetada, sem a excessiva preocupação de ser "artística".
Sem o intuito que muitos e muitas apresentam de querer agradar a uma parcela da população que gosta de se inserir num "padrão cult".
Em outras palavras, gente envernizada.

A dupla composta por Miranda Kassin e André Frateschi se configura como uma faceta promissora, ou mais do que isso, no universo da arte da interpretação no país.

Parte 2-

Enquanto isso, Lou Reed se prepara para seus shows no país, e tudo indica que não haverá nada do repertório do Velvet.

Não precisa ser músico de bar, escravo de hits, claro.
Mas pra que tanta excentricidade, Lou?

Há várias formas de querer chamar a atenção, e uma delas é apelar para a "marginalidade" excessiva.
Afinal, o repertório do Velvet é o que Reed tem de melhor mesmo. Aliás, das melhores coisas que a música nos deu no século passado.

Paul McCartney, por sua vez, pode ser criticado por se prender demais ao repertório dos Beatles, esquecendo suas pérolas solo. Dessa forma, muita das vezes foi "músico de bar" para grande auditório.

Para esse última turnê, com Ms.Vanderbilt, entre outras, parece abrir espaço para "incrementações necessárias", sem ter de ficar recorrendo a clichês como "Live and Let Die".

Paul é um dos maiores músicos do século XX, e torço para que consiga equilibrar o melhor de ambos os repertórios( o dos Beatles e o solo).
O que Reed poderia tentar também.

Discos favoritos de Paul, na ótica do bloguista:

Tug of War, Ram, Chaos and Creation...,Flaming Pie, Driving Rain, e por aí vai.

Dos Beatles, meus favoritos são Rubber Soul e Abbey Road, em que o instrumental da banda me parece melhor e, no primeiro caso, um conjunto de canções, e/ou de ousadias como The Word, que são eternas.

No segundo, no antigo lado B do vinil, uma colagem com o que há e houve de melhor na banda.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ciência, Tecnologia e Poder( continuação)





“As sociedades têm vida própria”.
Baseiam-se na existência de certas forças produtivas, em condições geográficas e climáticas, em técnicas de produção, em ideias e valores e num certo tipo de ser humano que surge sob tais condições.

São organizadas de modo a conservar a forma particular a que se adaptaram e acreditam, de maneira geral, ser natural e inevitável o modo pela qual vivem; tendem a crer que qualquer modificação essencial em sua forma de existência levaria ao caos e à destruição.

Essa convicção não é apenas fruto da ideologia.
Está arraigada na parte afetiva do homem, modelada por todas as disposições sociais e culturais que o levam a querer “fazer o que se tem de fazer”, de modo que sua energia seja canalizada para servir à função particular ( específica), que tem como membro útil de determinada sociedade.
É por estarem enraizados nos padrões de sentimento, que os padrões de pensamento são tão persistentes e resistentes às modificações.

No entanto, as sociedades, de certa forma, se modificam.
Muitos fatores, tais como descobertas científicas, novas forças produtivas e outros levam à transformação.

Mas, além desses fatores objetivos ou não tão objetivos assim, há a consciência cada vez maior que o homem tem de certas necessidades, e seu movimento alternado entre desejo de independência e desejo de submissão,o que provoca modificações constantes nas situações históricas.

Surge, então, uma questão subsidiária: o que torna a sociedade capaz de viver e reagir aos desafios?
É evidente que ela poderia ser capaz de distinguir entre “valores", digamos, "básicos”, instituições básicos, e os que seriam “secundários”?

“Sistemas secundários”, ou acessórios, gerariam valores próprios, que chegam a aparecer como tão essenciais, quanto as necessidades humanas e sociais que os provocaram? Mas, alguém dirá que tudo é desejo, e ponto.

O meu ou o seu? Eles, afinal, são de quem?

À medida que a vida dos indivíduos se liga a certas instituições, formas de organização e, sobretudo, estilos de viver, formas de produção e consumo, etc., homens podem se tornar dispostos a sacrificar-se, e a outros também, pelas obras que construíram, a transformar suas criações em ídolos e adorá-los.

As modernas sociedades industrial e pós-industrial, por exemplo, percebem-se e com orgulho, como sociedades da razão. Apesar de parecerem, em seu conjunto, a própria personificação da razão, chegam a personificar, por outro lado, a irracionalidade (Como há os que matam em nome do amor, ou da democracia- física e psicologicamente). A faminta produtividade pode destruir um livre desenvolvimento de faculdades e necessidades humanas, sua paz é mantida por uma constante ameaça de guerra, seu crescimento depende da repressão de reais possibilidades de suavizar a guerra pela sobrevivência.

Essa repressão, diferente da que caracterizou outras etapas, atua hoje não a partir de uma imaturidade “natural” ou técnica, mas de uma posição de força servida por uma tecnologia que, por um lado, pode esmagar aspectos criadores da natureza do homem.

Mas, por outro, a partir de certas resistências ao unívoco e brutal, gerar possibilidades de maior utilização de aptidões e recursos para os demais desenvolvimentos, ou a satisfação de necessidades individuais e mesmo coletivas.
Caso do aqui já citado jornal “O Cidadão”, entre outras iniciativas.

A chamada revolução tecnológica trouxe novas formas de apreensão do mundo e das relações que os homens estabelecem entre si.
Com relação às ciências e técnicas, é preciso dizer que, longe de serem neutras, sempre incorporaram representações humanas e sociais de seu uso.

Tanto os triunfos técnicos do complexo tecnológico, quanto seus desperdícios e perdas não estão dissociados dos valores, desejos, costumes, ideias e escolhas de sociedades, não sendo exclusivamente embrenhados em fatores externos, como reza o ranço de crenças “positivistas”, cristalizadas nas ciências e nos números.

Por mais que a técnica se alicerce no que considera “procedimentos objetivos das ciências”, só pode ser compreendida como elemento de uma cultura que promove o bem e o mal, de acordo com as definições de bem e mal dos grupos que exploram a cultura.

As mais importantes repercussões que o aparato tecnológico tem provocado referem-se aos produtos sociais e culturais dele derivados. A técnica é um elemento da cultura, não sendo, portanto, independente, isolada de uma conjuntura do homem e do tempo.
A máquina, por si mesma, não teria exigências ou finalidades, mas a cultura do homem, sim.

Certo desenvolvimento ocorreu, por certos aspectos, a partir de uma progressiva desvalorização do orgânico( não é esse um discurso ecologista), do corpo, da história, da experiência, como um grande objetivo a ser alcançado, em um processo de mecanização de hábitos humanos, a partir do controle e de um tipo específico de disciplina e de submissão.

O homem reduzido estritamente a um mecanismo de trabalho leva também ao estranhamento/alienação em relação à própria criatividade do/de ser.

Por suas contradições internas, se esse “desenho” aponta para outras possibilidades das formas de ser no mundo, também não deixa de evocar um caráter cruel, desumanizante de uma existência submetida a ditames do complexo tecnológico, dissociado de algum “bem estar”.

É, então, que o termo “qualidade de vida” se integra à tecnologia e à ciência de forma oportunista, como equivocadas compensações: cirurgias cada vez mais precoces ou inapropriadas para o peso daquela pessoa. Cremes de branqueamento de pele distribuídos para outros continentes,etc.

A finalidade de um tipo de trabalho dito racional, regulado de maneira unívoca, explícita ou implicitamente pela economia do lucro - e não pelo trabalho, a moeda, e o consumo enquanto troca entre viventes- levou a dramáticos impasses, evidenciados nas tutelas que pesam sobre os países do ainda chamado Terceiro Mundo, o que conduziu suas regiões a uma pauperização absoluta e, consequentemente, a uma acirrada violência urbana.
A uma intensiva precarização do trabalho, o que obrigou a vários empreendedorismos de curto e médio porte, como alternativas ao massacre do desemprego.

Muitos pobres que trabalham praticamente de domingo a domingo, em condições precárias, como mão de obra barata, ainda são chamados de “vagabundos”(ou aqueles que trabalham à tarde, nos fins de semana, e ainda estudam à noite).

Há quem o seja? Sim, assim como muitos ricos, se é para usarmos a expressão “vagabunda”, tão complicada. Como os parasitas, que jogaram fogo em mendigos, alegando pensar que os mesmos eram índios. “Soneto pior que a emenda”.
Ou os que, agora, aterrorizaram a estudante de uma universidade pelo fato da mesma "ser gorda”.

Com todo o avanço tecnológico contemporâneo, a instauração, a longo prazo, de imensas zonas de miséria, fome e morte parece ser parte integrante, “naturalizada” da organização de estímulo à “utopia globalizante”.

Nos países ditos desenvolvidos reencontramos um mesmo princípio de tensão social, de estimulação pelo desespero, com a instauração de regiões crônicas de desemprego e marginalização cada vez maior de populações de jovens, idosos, de trabalhadores desvalorizados.
Aliás, os idosos, tendo em vista a crescente redução do nascimento de crianças, serão a população predominante daqui a alguns anos. A pergunta de alguns é: “O que fazer com eles”?
Qualificá-los a morrerem resignados?


Nesse cenário, o homem pode se despersonalizar, se reificar, ganhando estatuto de coisa a ser consumida para, em seguida, ser descartada. Como é o caso também da disseminação de redes de prostituição de menores, fedofilias “legitimadas” por ranços machistas, sexistas e mercadológicos.

Tal disposição valorativa opera como violência simbólica contra dignidades básicas, em nome da “liberdade democrática”.
Mas com cara de um tipo muito específico de ditadura, embora de rosto impessoal.

Interessante que muitos dos indivíduos que se desenvolveram paralelamente ao avanço tecnológico são “reservados”, indiferentes e acríticos. Ainda bem que não são todos. Do contrário, iniciativas que uma grande mídia não se interessa por divulgar não teriam sido concretizadas.
A mesma mídia dita “livre e democrática”, cuja predileção é girar em torno de outros aspectos, muitos deles sub-impressionista, e em torno das mesmas ideias, em tonalidade de cinismo, ou de sensacionalimo, como instinto de autopreservação, enquanto máquina de lucro, pela mesmice reiterante de “registros” e abordagens.

Voltando um pouco, mas sem mudar o foco: segundo Marcuse, ao longo do desenvolvimento tecnológico e de sua ampla disseminação na sociedade, surge um novo tipo de racionalidade, fundada em valores tomados de empréstimo à máquina. Com isso, formam-se novos padrões de individualidade, em que o princípio do “narcisismo” tende a colocar o homem contra a sociedade, enquanto submetido aos códigos do consumismo em massa: ou seja, um homem destituído de autonomia, e mais isolado.

A tecnologia e a ciência, apesar de aparentarem o contrário, são um processo social em que a técnica segue como fator parcial. Podem promover tanto o autoritarismo, o controle social, quanto a liberdade. Tanto a escassez quanto a abundância, tanto o aumento, quanto a abolição do trabalho escravo(e/ou sob novas camadas).

Se em uma sociedade se vive mais para trabalhar do que se trabalha para viver, me parece ser ela socialmente contrária a seu princípio de eficácia.

Se a mesma acaba por gerar homens distanciados de interesses da vida, seja apáticos, ou a derivação disso em grupos góticos ou Emos e sua literatura...

Seja os desinteressados de algum desenvolvimento humano, alienados de si, de suas necessidades e desejos, e faltos de vinculação, o que se desenharia seria o equivalente a uma anticomunidade de bárbaros(sem nos referirmos especficamente a um grupo social).

Não por acaso muitos, como se fosse possível parar o dito progresso, tornam-se críticos virulentos da técnica.Como se a máquina fosse o demônio a comandar o homem.
E não o contrário.




Os - Para o tema, recomendo o filme O Planeta dos Macacos, de Tim Burton, que não é bem um remake, mas uma reconstrução.
Sobretudo pela arte que vai se insinuando em prolongamento de bordas e forças, a partir de uma superprodução norte-americana.

O outro é também ficção científica-de Jean Luc-Godard- sobre a preeminência da técnica e da máquina "neutra", impessoal e totalitária.

sábado, 6 de novembro de 2010

Ciência,Ideologia e Arte








Na revolução cultural e social ocorrida dentro dos períodos renascentistas e iluministas, o conhecimento foi crescentemente sendo atrelado ao método científico, configurando-se (supostamente) como superior ao conhecimento popular.

Mas como todo produto social, a ciência é progressivamente conformada durante o processo histórico. Assim, o sujeito, observador ou pesquisador, normalmente envolve-se com os valores e ideias de sua sociedade, refletindo em seu trabalho “valores e princípios” considerados em sua época.

Não permanecem, assim, como detentores de uma verdade absoluta, pois esse sujeito interpreta “a realidade”, e é parte integrante da produção do conhecimento que, por isso mesmo, não é neutro.

Ciência e ideologia

O pesquisador, ao escolher o seu objeto de pesquisa, necessariamente já se posicionou. Toda produção científica, assim, é balizada por interesses desses sujeitos, que determinam um recorte da realidade, já que nunca a abrange de uma forma geral: “são sempre interpretações, porque são do tamanho da mão que as constrói”, afirma Pedro Demo.

Sendo assim, o objeto de estudo das ciências é intrinsecamente ideológico e, porque carregado de decisões, político.

A ciência neutra, que se diz não ideológica, porque pautada em rigorosidade teórico-metodológica, apenas mascara sua conotação política (o que diríamos, então, de uma crítica de arte?).

Além disso, a ciência investiga objetos em consonância com interesses da sociedade, especialmente daqueles de uma estrutura que domina: não estuda qualquer evento ao acaso, mas principalmente aquilo que é relevante para quem a produz e/ou financia.

Na maioria das sociedades (eufemismo?), o conhecimento foi utilizado por grupos dominantes como instrumento de opressão. Vale ressaltar, entretanto, que o conhecimento culto, erudito ou científico não é propriedade de grupos dominantes. Saviani nos lembra que “nem o saber erudito é puramente burguês, dominante, nem a cultura popular é puramente popular.”.

Nas artes, temos o caso do samba produzido por Pixinguinha ou Sinhô, com os elementos de uma educação musical mais formal.
Ou, posteriormente, músicos mais cultos como Tom Jobim e João Gilberto, de formação erudita, influenciados por sambas feitos “na raça” e instinto, como os de Noel Rosa e Cartola.

E Villa-Lobos, músico erudito, a calcar muito do forte de sua obra na cultura caipira.

No cinema, o sofisticado alemão Rainer W. Fassbinder emulava o melodrama popular de Douglas Sirk que, por sua feita, não era puramente popular.

Charlie Chaplin fazia uso do “circense”, sem que abandonasse uma densa metafísica -pelo contrário-, tendo sido comparado, por grandes críticos, a nomes como Tolstoi, Charles Dickens ou Shakeaspeare(nesse último caso, Élie Faure), e não por acaso.

E alguém ainda acredita que Shakespeare fazia suas obras exclusivamente para “nobres”?

Ledo engano. Nem Chaplin.

Mas foram -e ainda são- admirados por grupos diversos.
No segundo caso, Carlitos e seu entorno, ou seja, um mito popular também amado pelas vanguardas européias - caso de pintores e escritores surrealistas - entre outros.

Ao passo que- interessante- Cecil B. DeMille, criador de superproduções em Hollywood, era visto por Salvador Dalí como artista de vanguarda.

Certos músicos do cenário pop, como Paul McCartney, apresentam, em meio ao singelo aparente de seus brinquedos, trocadilhos em texturas “verbovocomusicais”, traços nitidamente eruditos.

"Deus sabe quanto amei" (na verdade, Some Came Running), obra de Vincente Minnelli, rotulada como melodrama, não passa de uma grande tragédia sacra.

Enquanto seu musical – gênero então popular-, "O Pirata", apresenta muito do grande dramaturgo Luigi Pirandello, assim como o "Carruagem de Ouro", de Jean Renoir.

Sendo que o segundo seria mais respeitado -“respeitável”?-, talvez principalmente por ser europeu, realizado por filho de pintor impressionista, e não exatamente em formato de filme musical.

Não importa. Duas grandes obras, de forma e denso (complexo) discurso, realizadas por dois mestres do cinema.


Voltando, agora, à questão do rigor científico a que nos referíamos: a ciência coexiste com as noções ideológicas nela implicadas.O facto é traze-las à superfície, desmascarando-as.

Se possível, dominando-as de maneira crítica, enfrentando seus disfarces e não as encobrindo.

Dessa forma, estaremos oferecendo possibilidades da ciência também ser vista em sua condição de instrumento de manipulação e/ou opressão, a partir de seu formato de suposto purismo.

(Alessandro/Marina Battistetti Festoso e Juliana Neves)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Jornal





A origem do jornal O Cidadão, no Rio de Janeiro, deve ser semelhante à de muitos outros jornais comunitários. Um grupo de jovens da comunidade cansou de ver uma grande mídia distorcer a imagem de seu bairro.

Quando se falava na Maré era para apresentar casos de violência, e só. Nenhuma iniciativa dos moradores, referente à qualidade de vida, esporte, entretenimento ou cultura era divulgada.

Diante desse quadro unilateral e de distorções, que nos faz lembrar o “básico”, ou seja, que a imprensa não registra exatamente “fatos”, mas versões de fatos, sem falar nas muitas vezes em que obedece a uma série de predisposições e achismos, que aqueles jovens decidiram por fazer um jornal de sua comunidade.
Querendo mostrar aos moradores locais uma imagem distinta da que uma mídia explorava, o projeto tornou-se realidade em 1999, incluindo a adesão de dois jornalistas profissionais.

Um dos fundadores do jornal afirma não ter sido fácil, a curto prazo, o processo de aceitação do jornal na própria comunidade. Muitos receberam a ideia com desconfiança, temendo revelar suas opiniões e críticas, contar suas histórias ou aparecer em fotografias.

Muito disso ocorreu por conta do que viam e liam em outros jornais, pela própria representação social de si, embutida em vários veículos.

No entanto, sem tamanha internalização das representações que vinham "de cima para baixo", a comunidade hoje se sente representada pelo O Cidadão, que passou a dar voz a vários grupos que por ali residem. Caso dos pescadores que vivem da pesca na poluída baía de Guanabara.

O jornal também promove campanhas educativas, como a realizada com a Companhia de Energia Elétrica, que trata de acidentes nas redes elétricas.

Há seções de dicas de vários cursos. E, nesses oito anos, O Cidadão vem ajudando na solução de problemas do bairro, referentes à educação, à saúde, saneamento básico, entre outros.

O jornal hoje sai com uma tiragem de 20.000 exemplares, distribuídos gratuitamente pelas dezesseis comunidades que formam o complexo da Maré. Seus recursos provêm de anúncios de publicidade e o apoio de algumas empresas.
Se alguém se interessar, conferir no www.ceasm.org.br. (se eu não estiver enganado).


Passadas as eleições, o que se notou em parte considerável da imprensa brasileira foi algo equivalente a uma torcida acirrada de futebol, nos termos da violência, e até mesmo da sabotagem de “fatos”.

Instalou-se por aqui um clima de terrorismo, na base de ataques imediatistas, colaborando para desfocar o leitor de questões pertinentes ao país.

Por muitas vezes, uma necessidade de frisar frases fora de contexto, ou “meias verdades”, o que dá mais ou menos no mesmo, como necessidade de chocar uma população, contando que a mesma só possuiria um único referencial de informação(ou de desinformação) para acompanhar.(O que muitas vezes procede).

Um grande grupo de classe média, outros de mais baixa renda, junto a certa elite econômica continuam se apegando às revistas de sempre, como atestado das “verdades que convém”, reproduzindo conceitos, valores, estereótipos do arco da velha, com suas desgastadas representações sociais, em tom de histérica teatralidade. Com isso, o debate se tornou frouxo.

Uma mídia na defensiva chega a cogitar a possibilidade, para eles concreta, de censura, quando nada disso é concreto.

Ou seja, falar meias verdades ou omitir tantas outras coisas não seria censura. Dessa forma, fica fácil trabalhar, escrever, na base de dois pesos e duas medidas.

Uma dessa revistas conta com um articulista, para quem tudo- (ou quase)-o que vem do pais é ruim. Provavelmente, o mesmo “jornalista” não seria aceito em revistas dos países que julga “amar”, tamanho espírito de porco.

Pseudo-intelectuais estão à solta para agradar a uma parcela significativa da classe média, a pessoas incautas, e a um grupo de elite econômica(que não sabe pesquisar por si mesmo). Não raro àqueles que apresentam uma necessidade de se sentir parte de uma “elite intelectual”.

Um país que nos deu Antônio Cândido, Sérgio Buarque e muita gente boa por aí, prefere, em várias parcelas, se contentar com a mediocridade gratuita... Ou nem tão gratuita assim, pois há anúncios, o preço dos exemplares e outros comprometimentos.

Enquanto isso, muitos jovens e mesmo algumas igrejas demonstram uma direta ou indireta aversão a ritmos e estilos brasileiros de música, por exemplo, como se tudo o que viesse de fora, já fosse por princípio, “mais nobre”, ou “mais santo”.

Por um lado, um ranço de mentalidade calvinista da “predestinação dos bons”.
Por outro, bolhas de proteção que, por ódio a si mesmas, preferem projetar uma imaginária superioridade em “outro continente”.
“Esquizofrenia ou autismo”, histórico - inclusive.

O preço é a omissão e a picaretagem, muita das vezes autoconsentida, como instinto de preservação psicológica pela(auto)enganação.

No caso, cabe não somente estudo, como muita terapia e autocrítica.