
"Meet me in St.Louis"( ou “ Agora seremos felizes”, no Brasil) costuma ser visto como obra nostálgico. Para certas pessoas ou críticos, a simples pronúncia dessa palavra já instalaria, na hora, certo descaso ou desconfiança.
Não pretendo, nesse momento, realizar um trabalho de crítica do filme. Somente confrontar uma velha postura de que o musical seria, por uma espécie de declaração de princípios, um gênero “menor”- " tolinho". Não dá para seguir adiante em uma arte com certas (in)compreensões enraizadas, o que contribui para truncar as coisas por suas limitadas divisões.
A tendência de exigir uma embalagem de “seriedade” para uma obra de arte remonta ao filósofo grego Artistóteles e sua hierarquização dos gêneros, ao postar a tragédia no topo mais alto da pirâmide estética.
Dizer que “Meet me in St.Louis” é uma obra bem montada, que o trabalho com as cores é notável e equilibrado, e que a delicadeza da direção é o que se impõe seria talvez “chover um tanto no molhado”. Embora ela me prenda justamente por esses fatores.
Fato é que se trata de uma obra evocativa, de memória.
No caso do cinema, postulá-lo como “arte” costuma trazer procedimentos, não raro, bem problemáticos, já que a ninguém ocorreria desprezar Marcel Proust, o escritor francês, por trabalhar a memória. Mesmo não sendo obrigatório gostar do referido escritor.
O equívoco em torno de “Meet me In St.Louis” passa pela leitura de que o mundo do filme se configuraria como dividido em dois polos. De um lado, uma cidadezinha provinciana, quase paradisíaca. De outro, uma metrópole que poderia sugar os protagonistas, sufocando-os de vez.
O que o filme nos mostra é que permanecer na cidadezinha não implicaria, em momento algum, recusar movimentos. Mas, pelo contrário, crescer junto a ela, uma vez que a horas tantas saberemos que a mesma estará passando por um tipo de desenvolvimento.
No caso, mudar para Nova York equivale a encontrar algo mais ou menos pronto, já “crescido”,e, até certo ponto, programado.
Estar junto a uma cidade que cresce implica acompanhar o processo, e consequentemente, o seu próprio enquanto indivíduo, ser parte integrante de um movimento de desenvolvimento não acabado das coisas, enquanto mundo de possibilidades e promessas. Já aqui, os termos interferência e contemplação não se excluem, mas se equivalem.
Portanto, meu comentário, ao ressaltar esse(s) ponto (s), não pretendeu, em absoluto, realizar a crítica dessa belíssima obra já conhecida de muitos cinéfilos. O objetivo, como blog de educação, foi o de mostrar como um gênero tido habitualmente como “menor”, ou “bobagem nostálgica” não é tão tolo quanto pode aparecer em uma primeira visada. Se realizada por diretor europeu, tipo Federico Fellini, por exemplo, a visada seria outra. Como o foi, aliás.
Por fim, a direção do filme é tão perfeita que essas palavras seriam dispensáveis. Digo isso, sem pretender retórica. A obra de Minnelli, afinal, foi das ocupadas com a iniciação e reiniciação do olhar.