
Passando os olhos pela lista de "filmes abacaxis" , proposta por André Barcinski
O crítico considera "Alphaville", de Jean-Luc- Godard um belo de um abacaxi.
Pode não ser um filme perfeito. Mas creio que o diretor não tenha almejado algo "perfeito".
Talvez tenha almejado até mesmo "um abacaxi". E me parece, nesse caso, ótimo. Senão vejamos:
1- Barcinski fala em "pastiche de filme noir", como de algo pejorativo.
Me parece até mais uma paródia do que pastiche- não exatamente como crítica, mas como uma bela recontextualização da ficção-científica para a realidade urgente dos anos 60.
Quando uma arte adquire consciência de que já carrega em si uma história, cabe uma ironia, um certo distanciamento- mais na cara.
Por exemplo: quando Vincente Minnelli (cuja mostra começa agora dia 31 em Sampa) realiza seu musical "A Roda da Fortuna" nos anos 50, a última e longa cena musical não passa de uma paródia ao filme noir. Notamos, a um tempo, seu irônico distanciamento, como também certa amorosidade ao poder recontextualizar a história do gênero na superfície dos objetos, das cores e dos corpos de Fred Astaire e de Cyd Charisse.
Ou seja, quase todo Tarantino já estava ali, nesse filme a um tempo sarcástico e amoroso.
Quentin Tarantino, por sua feita, puxa uma bela sardinha de Godard, que, em Alphaville, fez uso do mesmo jogo-operação para o gênero ficção científica. Daí essa imagem puída, barata ou irônica.
2- A propósito, Barça fala também de "Gran Torino" ( Clint Eastwood) como de "Duro de Matar".
Não lhe ocorreu que Eastwood, desde muito, se encarrega de passar não somente seu velho mito, como a história do cinema norte- americano a limpo. O que, para tanto, não significa destruir por destruir.
Para que se estabeleça um diálogo com a história dos filmes e da América (ambas entrelaçadas) cabe partir dos clichês dos mesmos, dos gêneros, a um ponto de revirá-los.
Ao fazê-lo, é a própria história oficial norte-americana, fulcrada em muito na imagem dos filmes que passa a ser reposta. E tal cinema, revitalizado, justamente a partir dessa imagem de morte embalsamada.
Ou seja, se alguém morre no filme não seria meramente o protagonista, mas a dimensão simbólica de um cinema que não serviria para "mais nada".
Seria fácil, cômodo em todos os casos citados uma mera implosão punk, dadaísta. Mas tais artistas ( Minnelli, Godard, Eastwood, Tarantino) sabem deveras que o presente não se faz da anulação gratuita de um passado.
Aliás, são e foram criadores de uma arte que, quanto mais circense e "bastarda", melhor.